SOBRE



Em 1954, Allport define preconceito como “uma antipatia baseada em generalização errada e inflexível” que envolve actos discriminatórios prejudiciais aos alvos do preconceito.
Em 1996, Glick e Fiske afirmam que o sexismo “(...) é, e provavelmente sempre foi, um caso especial de preconceito marcado por uma ambivalência profunda, e não uma antipatia uniforme, para com as mulheres”.
Em 1998, Neto reconhece que, não obstante o conceito teórico – o sexismo caracteriza-se pelo preconceito e pela discriminação com base no género –, as mulheres têm sofrido mais os seus efeitos na prática.
Para Glick & Fiske o sexismo não se enquadra no molde teórico do preconceito como uma antipatia pura. Os autores propõem, então, o conceito de sexismo ambivalente: um construto multidimensional que compreende a expressão de comportamentos ora hostis, ora benevolentes para com as mulheres, com implicações avaliativas opostas. Ambos – sexismo hostil e sexismo benevolente – assentam em papéis de género tradicionais e são utilizados para justificar a estrutura social patriarcal. 

O Sexismo Hostil divide-se em três componentes:
×          Paternalismo Dominador: comportamento do homem é justificado e legitimado com base no argumento de que, enquanto indivíduos não inteiramente competentes, as mulheres necessitam de supervisão masculina;
×          Diferenciação de Género Competitivo: tendência a realçar as diferenças entre homens e mulheres em favor dos homens;
×          Heterossexualidade Hostil: repercussões às mulheres que desafiam o poder dos homens.
O Sexismo Benevolente divide-se em três componentes:
×          Paternalismo Protector: modo de o homem se relacionar com a mulher de forma em muito semelhante à dinâmica pai e filho;
×       Diferenciação de Género Complementar: inclui e enfatiza as diferenças entre homens e mulheres de forma a favorecer as mulheres, sendo implícita a assunção de que a mulher completa o homem;
×       Intimidade Heterossexual: sentimentos intensos de gostar e anseio, juntamente com uma visão veneradora das mulheres.
O sexismo é uma construção social que cria e mantem limites simbólicos – macro-social, inter e intra-psicológicos – que, se transgredidos, são alvo de práticas discriminatórias e o patriarcado, parte integrante dessa construção social, submete sistematicamente mulheres à dominação dos homens, mas também homens à dominação de outros homens.
Nos países desenvolvidos a taxa de mortalidade é superior para os homens e a relação entre o patriarcado e a saúde masculina começa a ser estudada. Um crescente corpo de pesquisa estadunidense apresenta fortes evidências de que os homens têm, de facto, estilos de vida menos saudáveis do que as mulheres e de que os homens são, sistematicamente, mais propensos do que as mulheres a envolver-se em comportamentos que aumentam o risco de doença, lesão e morte. Ironicamente, apesar de os homens constituirem um grupo de risco, tendem menos a reconhecê-lo.
Um estudo da Universidade de Rutgers coloca em evidência que para homens com concepções tradicionais de masculinidade é menor a probabilidade de procurar ajuda na eminência de um problema de saúde e menor a propensão para serem honestos relativamente ao problema de saúde quando o médico é outro homem. Em todo o caso, é mais provável que escolham um médico porque acreditam que o homem é mais competente do que a mulher.
A Universidade de Harvard acrescenta que os homens têm profissões mais perigosas, maior propensão para cometer suicídio e menos conexões sociais.
Para exibir ideais dominantes de masculinidade, os homens aderem a crenças e comportamentos culturalmente determinados masculinos e rejeitam o que é, caracteristicamente, de uma perspectiva sociocultural, feminino. Ainda que nada proíba os homens de exibir a masculinidade de outro modo, fazê-lo implica ultrapassar construções sociais e enfrentar ameaças de perigo – inclusive físico. Ao exibir os ideais dominantes de masculinidade, por outro lado, os homens acedem a posições de poder – em relação a mulheres e a homens menos poderosos – que perpetuam, premeiam, recompensam. O patriarcado impacta também, negativamente, os homens.
O sexismo é uma construção social que cria e mantem limites simbólicos e os agentes sociais não são, por isso, passivos, antes participam activamente na manutenção e reprodução dos papéis sociais de género – masculino e feminino – e das estruturas que os suportam. O género é inerentemente, ao contrário do sexo, transação social.
A investigação corrobora a percepção de que as diferenças associadas aos papéis sociais de género se começam a esbater – não há dois géneros distintos, há gradações de variáveis que são contínuas – mas, para Twenge, fica claro que apesar de, nas últimas décadas, em sociedades ocidentais, as mulheres assumirem cada vez mais traços estereotipadamente masculinos, instrumentais e assertivos, os homens não assumem cada vez mais traços estereotipadamente femininos, de comunhão e expressivos. Falamos da valorização de traços tipicamente masculinos – narcisismo, individualismo, autoestima –, bem como do aumento do interesse por valores extrínsecos – dinheiro, imagem, fama. Falamos, também, da desvalorização de traços tipicamente femininos – altruísmo, cuidado, compaixão –, bem como da diminuição do interesse por valores intrínsecos – auto-aceitação, afiliação, comunidade. O estatuto da mulher subiu mas os traços femininos permanecem desvalorizados.
Um estudo publicado, em 2010, pela University of Cambridge coloca em evidência que a ausência de relações sociais de qualidade concorre como risco de saúde com factores como a obesidade, a hipertensão, o diabetes, a inactividade física, consumo de tabaco, etc.  O maior preditor de saúde é a rede social. Em evidência científica é também colocado o facto de que a quantidade e a qualidade das relações sociais nas sociedades industrializadas está a diminuir. Apesar da inovação tecnológica e da globalização, que presumivelmente fomentariam o suporte social, estamos a tornar-nos em seres cada vez socialmente mais isolados. Os modelos teóricos que suportam a importância das redes sociais apoiam-se em processos a partir dos quais as relações podem influenciar a nossa saúde: asrelações sociais podem fornecer os recursos necessários – informacionais, emocionais ou práticos – à promoção do comportamento adaptativo; as relações sociais contribuem para autoestima e propósito de vida.
Os dados apontam que os indivíduos com relações sociais de suporte têm uma probabilidade de sobrevivência 50% superior aos indivíduos sem suporte social adequado.  A magnitude deste efeito é comparável a deixar de fumar e pode superar a importância de factores de risco para a mortalidade conhecidos, como a obesidade e a inactividade física. Estes efeitos permanecem consistentes com um conjunto de factores como a idade, o sexo e o estado de saúde inicial.
A Análise Crítica do Discurso, investigação transdisciplinar – Antropologia, Micro-Sociologia, Psicologia Cognitiva e Social, Linguística, Semiótica… –, estuda, nas palavras de Teun van Dijk, “o modo como o abuso de poder social, a dominância e a desigualdade são pontos em prática, igualmente o modo como são reproduzidos e o modo como se lhes resiste, pelo texto e pela fala, no contexto social e político”.  Para Norman Fairclough e Ruth Wodak:

×          A Análise Crítica do Discurso dedica-se a problemas sociais;
×          As relações de poder são discursivas;
×          Discurso constitui a sociedade e a cultura;
×          Discurso tem um funcionamento ideológico;
×          O elo de ligação entre texto e sociedade é mediado;
×          A Análise Crítica do Discurso é interpretativa e explicativa;
×          Discurso é uma forma de acção social.

Considerando a noção de poder social enquanto controlo discursivo, importa sistematizar e operacionalizar o conceito de discurso, frequentemente utilizado como sinónimo de texto. Teun van Dijk define discurso como “texto em contexto”. Ruth Wodak acrescenta que o discurso se define pelo carácter abstrato, comparativamente ao texto, e “implica padrões e semelhanças de conhecimento e estruturas, enquanto o texto é uma realização específica e única de um discurso”. O discurso é, assim, formado pelo complexo de eventos comunicativos e insere-se num determinado contexto. O contexto, por seu turno, define-se, nas palavras de Teun van Dijk, como “a estrutura mentalmente representada das propriedades da situação social que são relevantes para a produção e compreensão do discurso. Consiste em categorias como a definição global da situação, localização (tempo e espaço), ações em curso, participantes nos seus vários papéis comunicativos – social ou institucional – bem como as suas representações mentais: finalidades, conhecimento, opiniões, atitudes e ideologias. Controlar o contexto implica controlar uma ou mais destas categorias, determinar a definição da situação comunicativa, decidir o tempo e o espaço do evento comunicativo, ou onde os participantes podem ou devem estar presentes, e em que papéis, ou que conhecimento ou opiniões devem (não) ter, e que tipo de ações sociais podem ou devem ser realizadas pelo discurso”. Assim, os grupos têm mais ou menos poder conforme a sua possibilidade para controlar (mais ou menos) o discurso. Contudo, é sempre o contexto que interfere, reforça e/ou transforma as relações.
A noção de discurso público inclui o acesso e controlo ao discurso mediático, bem como aos discursos académico, educativo, legal, político, etc.. Neste quadro conceptual, compreendem-se as razões abaixo mencionadas, propostas por Teun van Dijk, para explicar a parca resistência dos grupos dominados: 

×          Os recetores tendem a aceitar as crenças, o conhecimento e as opiniões do discurso produzido por quem vêem como fontes “autoritativas”, de confiança, ou credíveis, como académicos, peritos, profissionais ou os média de referência;
×          Em algumas situações, os participantes são obrigados a ser receptores do discurso, como é o caso da educação e de entrevistas de emprego. Nesses casos, as lições, os materiais de aprendizagem, as instruções (…) e outros tipos de discurso podem ter que ser ouvidos, interpretados e aprendidos tal como foram intencionados pelos autores institucionais ou organizacionais;
×          Em muitas situações não há discursos públicos ou média que forneçam informação a partir da qual possamos derivar crenças alternativas;
×          Os recetores podem não ter o conhecimento e as crenças necessárias para desafiar os discursos ou a informação a que estão expostos.

Assim, ainda que muitas vezes integrado em esferas jurídico-legais, o poder dos grupos dominantes pode, no entanto, ser aplicado “na miríade de acções dadas como adquiridas da vida quotidiana, tal como é o caso típico das muitas formas de sexismo”, coloca Teun van Dijk.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

×          Carothers, B. J., & Reis, H. T. (2013) Men and women are from Earth: Examining the latent structure of gender. Journal of Personality and Social Psychology, 104, 385-407.
×          Chisango, T., Mayekiso, T., & Thomae, M. (2015). The social nature of benevolent sexism and the antisocial nature of hostile sexism: Is benevolent sexism more likely to manifest in public contexts and hostile sexism in private contexts? International Journal of Psychology, 50(5), 363-371. doi:10.1002/.12106
×          Costa, P. A., Oliveira, R., Pereira, H., & Leal, I. (2015). Adaptação dos Inventários de Sexismo Moderno para Portugal: O Inventário de Sexismo Ambivalente e o Inventário de Ambivalência em Relação aos Homens., 28(1), 126-135. doi:10.1590/1678-7153.201528114
×          Dijk, T. (2005). Discurso Notícia e ideologia. Porto: Campo das Letras. (pp. 1-34).
×          Glick, P., & Fiske, S. T. (1996). The Ambivalent Sexism Inventory: Differentiating Hostile and Benevolent Sexism. Journal of Personality and Social Psychology, 70(3),491-512
×          Glick, P., & Fiske, S. T. (2001). An ambivalent alliance. Hostile and benevolent sexism as complementary justifications for gender inequality. The American Psychologist, 56(2), 109-11
×          Glick, P., & Fiske, S. T. (2011). Ambivalent Sexism Revisited. Discussion of Hostile and benevolent sexism: measuring ambivalent sexist attitudes toward women by Peter Glick and Susan T. Fiske, 35(3), 530-535. doi:10.1177/0361684311414832
×          Neto, F. (1998). Psicologia Social. Volume 1. Lisboa: Universidade Aberta.
×          Rocha, A., Baptista, A., Araújo, H., Fernandes, J., & Cardoso, R. (2017). Nos Subúrbios do Convencionalismo: Relação entre Sexismo e Atitudes negativas para com Lésbicas e Gays. Porto: Universidade do Porto.
×          Twenge,J.M.(1997).Changesinmasculineandfemininetraitsovertime:Ametaanalysis.SexRoles,36(5/6),305-325.
×          Twenge,J.M.(2009).Statusandgender:Theparadoxofprogressinanageofnarcissism. SexRoles,61,338-340.
×          Twenge, J. M., Campbell, W.K., Freeman, E. C. (2012). Generational differences in young adults' life goals, concern for others, and civic orientation, 1966–2009. Journal of Personality and Social Psychology, 102(5), 1045-1062.
×          Wodak, R. Krzyzanowski, M. (2008). Qualitative Discourse Analysis in the Social Sciences. New York: Palgrace Macmillan. (pp. 1-19).

Sem comentários:

Enviar um comentário