sábado, 2 de novembro de 2019

CATARINA ROSA: TAIL TO TAIL


Ana Rocha: Quem é a Catarina Rosa?
Catarina Rosa: Eu acho que o que estou a fazer agora – Tail to Tail – acaba por ser um culminar do que fui e do que sou. Aceitei esta entrevista precisamente porque acho que é mais interessante o trabalho ser, por conclusão da pessoa em que me tornei, do que o contrário: adaptarmo-nos pelo trabalho. Tenho 42 anos, nasci em Lisboa. Quando era pequenina queria ser Médica Veterinária, foi a primeira profissão que escolhi: adorava animais – principalmente minhocas, lagartixas, camaleões. Quando morria um peixe, no aquário do Colégio, era eu que dava conta, e fazíamos um enterro do peixe. Isso não foi muito estimulado pelos meus pais.

"Aceitei esta entrevista precisamente porque acho que é mais interessante o trabalho ser, por conclusão da pessoa em que me tornei, do que o contrário: adaptarmo-nos pelo trabalho."

A.R.: Viviam em apartamento?
C.R.: Vivíamos em apartamento. Chegamos a ter um cão, um pastor alemão, durante uma semana. Na altura usava-se alcatifa e, quando o cão começou a fazer xixi no chão, foi para casa de uns tios que tinham uma moradia. Depois tive periquitos, hamsters, mas nunca cães, nem gatos. Acabei por não estimular muito a relação com os animais. Sou licenciada em Design Gráfico, pelo IADE. Gostava de ter seguido pintura, porque era onde eu me sentia bem, o que eu fazia melhor e onde eu me evidenciava no grupo – no Colégio, depois no Liceu e também na Faculdade. Na altura tinha um tio, pintor, que não vivia disso mas que fazia várias coisas – era o verdadeiro artista. Era caricaturista, fazia os cenários do teatro de revista do Maria Vitória, escrevia letras para fados, para marchas, fazia escultura. Na altura, eu queria ter seguido Belas Artes e Pintura. Os meus pais eram contra. Nem pensar, porque não dá nada! Isso é estudar para nada! Na altura, era um bocadinho assim. Precisávamos de um patrão para ter alguma estabilidade. Acabei por me licenciar em Design Gráfico, pelo IADE, e ainda trabalhei em algumas Agências de Comunicação. Fazia Design Gráfico. Em algumas dessas Agências experimentei ser Account Comercial. Adorava a relação com o público, o tentar perceber o cliente, o passar da mensagem ao Designer. Fiquei sempre dividida entre a parte mais relacional – emocional – e a parte mais técnica. Mais tarde, acabei por trabalhar numa Consultora Imobiliária. Dividia-me entre o Departamento de Marketing e o Design Institucional da empresa. Quando tirei Design nunca mais pintei.
A.R.: Pintava quando era adolescente?
C.R.: Não. Quando era adolescente tinha uma vida social muito activa. Praia. Amigos. Noitadas. Depois de querer ser Médica Veterinária, comecei a desenhar e a perceber que gostava de desenhar. Fiz um curso de Cinema de Animação – Gulbenkian – e concorri a um cargo numa empresa que ia abrir, de Cinema de Animação, em Portugal. Fui seleccionada e escolhida para entrar na primeira fase mas, na altura, estava no terceiro ano da faculdade, no IADE, e não podia deixar o ano a meio. Deixei-me para segunda fase – entrava no segundo grupo para a empresa e acabava o terceiro ano – mas, entretanto, aquilo não correu bem. É mais barato comprar Cinema de Animação do que fazer Cinema de Animação em Portugal. A empresa acabou. Entretanto, nunca mais pintei. Um dia estava a vir para casa e, no autocarro, passei por um cartaz, um anúncio, que dizia Aulas de Pintura. “E se eu começasse, outra vez, a pintar?” Tinha 34 anos. Acho que desde o 12º ano que não pintava. Eu tirei o curso Tecnológico – de 10º, 11º e 12º – de Pintura e Escultura, de Artes e Ofícios, para fugir Matemática. Gostava muito de ter frequentado a António Arroio, que era uma escola de artes aqui em Lisboa, mas era muito longe de casa, nunca se pôs essa ideia.

"É mais barato comprar Cinema de Animação do que fazer Cinema de Animação em Portugal."

A.R.: O seu percurso poderia ter sido diferente?
C.R.: Acredito que sim. Ia ser tudo diferente. Os amigos iam ser diferentes. A abordagem à Arte ia ser diferente. A minha personalidade. E às vezes penso nisso, no tempo que poderei ter perdido a tentar ser uma Designer que nunca fui porque nunca foi boa a Design. Na António Arroio talvez pudesse ter explorado mais o lado criativo e hoje, talvez, estivesse a fazer outro tipo de pintura e não estava a… Não era isto que estava a fazer. Qualquer coisa que mude no nosso percurso muda-nos. Seria muito diferente. De certeza. No dia a seguir voltei a apanhar o autocarro, parei e fui saber mais sobre as Aulas de Pintura. Era o Vítor, um senhor com já oitenta anos. Da velha guarda, do tempo do meu tio. Conheciam-se e tinham andado na António Arroio juntos. Era um senhor muito engraçado de se estar. Depois uma amiga minha também veio para as aulas. Levávamos queijinhos e tostas e estávamos ali numa de conversa e pintura. O Vítor propunha uns exercícios muito românticos, de mulheres com um chapéu muito grande a passear a beira da água, de naturezas mortas… Eu não adorava e não queria pendurar em minha casa. Por isso, perguntei se podia ser eu a escolher o tema. Eu já conhecia o que faço porque tinha uma amiga com um quadro gigante de uma cadela vestida de senhora – de um belga, Thierry Poncelet. Sempre que se entrava em casa dela, era a primeira coisa que se via. Thierry Poncelet é de restauro: compra quadros que já ninguém conhece – a avó do avô – , em leilões, velharias, feiras, enfim, restaura-os e pinta uma cabeça de cão por cima.
A.R.: É sempre um cão?
C.R.: É sempre um cão. São sempre cães. Esta minha amiga tinha um quadro desses. Às vezes, à espera dela, ficava horas a olhar para o quadro. A pensar. “É só um cão. É um cão. É o quadro mais importante da casa – está na zona mais importante da casa – e é só um cão.” Não é a avó, não é a mãe, não… Aquilo mexia comigo. A importância que aquele cão, que não era ninguém, tinha naquela casa: a casa era linda, muito bem decorada. Entretanto, eu tinha um amigo cujo cão não tinha um olho. Pensei “vou pintá-lo”, vou oferecer-lhe um quadro do cão com uma gola à Camões e com uma pala no olho. O objectivo era ter vontade de ir para as aulas. Aquele quadro demorou seis meses a fazer. Hoje em dia já não demoro tanto.

“É só um cão. É um cão.
É o quadro mais importante da casa – está na zona mais importante da casa – e é só um cão.”

A.R.: São verdadeiros retratos de pessoas que substitui pela cabeça do animal.
C.R.: Sim. A criatividade está em adequar a roupa e as cores à personalidade do animal. Depois, há coisas engraçadas em que entra o Cinema de Animação – o que eu faço acaba por ser o conjunto de tudo o que eu quis ser. No Photoshop – faço o esboço, tenho a composição e depois passo, à vista, para a tela – é muito diferente pôr um cão que está sentado com a cabeça erguida ou flectida para um dos lados. Às vezes até me rio sozinha a fazer as montagens porque parece que mexem. Eu acabo por lidar com animais, que era o que eu queria.
A.R.: As pessoas enviam as fotografias dos animais?
C.R.: Enviam, várias. Eu até peço, normalmente, várias fotografias. Peço a três quartos, fotografias em que se vejam os dois olhos mas que não sejam de frente – de frente ficam com pouca perspectiva, com pouca profundidade. Peço fotografias em que se vejam, se os tiverem, os elementos diferenciadores. Pergunto se têm preferência por cores ou por roupa.
A.R.: Partilha o esboço antes de passar para a tela?
C.R.: Não.
A.R.: Essa é uma vantagem em relação ao Design.
C.R.: É! (Risos.) Por isso é que eu digo que eu estou a meio das escadas – não é o estágio final, mas todos os degraus que eu subi contam. Há um cliente que pediu para ver. Pedi-lhe para me dizer as cores, o estilo e para confiar em mim. O que acontece no Design – e poderia acontecer aqui – é que as pessoas já não estão a discutir o que fica bem ou mal, o que funciona e o que não funciona. É ego. É difícil gerir. É obvio que me adapto para espaços mais comerciais – como o Nicolau, a Amélia ou o Basílio. A Amélia foi pintada para aquele espaço. Para o primeiro Nicolau, consideraram-se as cores dos azulejos. Há, agora, um segundo Nicolau. No Porto. O mesmo cão vestido de outra forma, modernizou-se – mais pintarolas. É outro retrato. Nunca gostei de mostrar trabalhos não finalizados. Não funciona, promove stress e, felizmente, as pessoas têm confiado em mim e têm – a maior parte das pessoas, quase todas – reforçado precisamente isso. “Confio em si, faça o que quiser.” Tudo foi preciso para chegar aqui – inclusive, a obstinação do meu perfil. O Tail to Tail suma a pessoa que eu sou e a minha experiência de vida. Às vezes pergunto-me se terei perdido tempo a frequentar a licenciatura em Design. Acho que não. Está tudo está na mochila.
A.R.: Tem um dom?
C.R.: Eu acho que poderei ter. Eu acho que há vários tipos de inteligência e eu poderei ter uma inteligência visual ou, então, uma inteligência visual mais alta do que tenho a inteligência motora. Tenho dois pés esquerdos. Na primeira, segunda e terceira classe era sempre a última a acabar a cópia, era a pastelona da sala mas, no final, talvez fosse a aluna com a letra mais perfeitinha e com a folha menos amarrotada. Quem é a Catarina Rosa? Acho que sou uma pessoa do pormenor e do detalhe, mais do que do foco no todo. Eu não me recordo da pessoa gorda ou magra, mas recordo-me do brinco. Reparo mais nos detalhes, e muitas vezes preciso de pedir opinião acerca dos quadros porque estou excessivamente focada nos pormenores. Uma vez pintei um quadro, uma encomenda, de três miúdos a comer esparguete. O quadro tem dois metros de altura. Os miúdos estão com as mãos cheias de esparguete e eu pintei o esparguete todo: cilindros perfeitos, com o tomate. Quando me afastei não se via nada. O quadro tinha dois metros de altura, ia ser pendurado numa parede alta e eu precisei de o desconstruir. O dom? Acho que todos temos uma tendência mais para um lado do que para o outro. Eu acredito que tenho a minha inteligência visual mais desenvolvida – também a vim desenvolvendo e, depois, o que eu tenho sentido é que quanto mais pinto, mais rápida sou a pintar e mais aperfeiçoo a minha técnica. Já vi muitas pessoas com quem me cruzei na faculdade, que não desenhavam bem, por tanto desenharem, a ganharam um traço certo, uma precisão no traço que resulta em desenhos com identidade. Desenhar estimula-se mesmo. Não fica logo bem. Se eu tivesse um dom, se fosse uma coisa fora de série… Com o Basílio eu chorei. Porque é que eu não estou a conseguir? Porquê? Porquê? Não lhe chamaria dom. Dom é fazer com uma perna às costas.

"Eu não me recordo da pessoa gorda ou magra, mas recordo-me do brinco. Reparo mais nos detalhes, e muitas vezes preciso de pedir opinião acerca dos quadros porque estou excessivamente focada nos pormenores."

A.R.: O Cristiano Ronaldo...
C.R.: Eu não sei se o Cristiano Ronaldo tem um dom. O Cristiano Ronaldo tem muito trabalho. O Messi tem um dom – talvez, não trabalhado. O Cristiano Ronaldo tem muito trabalho.
A.R.: O que vale mais: ter um dom ou trabalhar arduamente?
C.R.: Eu acho que é o conjunto. Um dom todos temos.
A.R.: Nesse caso, descobriu o seu dom?
C.R.: Acho que já descobri qual é o meu papel no mundo.
A.R.: Em palavras, como descreveria o seu papel no mundo? Numa frase.
C.R.: O que eu estou a fazer. Neste momento eu tenho muitas, muitas encomendas. O que me dá gozo nisto é – também é discutível se é arte, se não é arte, e acaba por ser só uma cópia de uma fotografia com a minha escolha das roupas e identificação do cão e identificação do cliente e isto também tem que ver com a designer que fui – e a arte que vejo é quando entrego o quadro. Com algumas encomendas, eu tenho possibilidade de ver a reacção de pessoas que recebem o quadro e que não estão à espera. Várias pessoas que desatam a chorar. A minha arte é exactamente o poder de entregar essa emoção. Quando uma pessoa me diz “o meu cão morreu há um mês e eu só vou descansar quando o tiver pendurado na parede de minha casa”. Eu sinto e sei que consigo dar esse descanso a essa pessoa, eu tenho a obrigação de o fazer. Não é um peso. Em que posso alimentar o mundo? O que posso tirar de mim e dar ao mundo? O que eu vejo aqui de artístico é isso. Por exemplo, soube agora, a propósito de uma encomenda, que o quadro é uma prenda de um filho para dar a uma mãe. Ele está numa lista de espera, grande, e alguém que o conhece ligou-me e pediu-me para avançar porque a mãe está em estado terminal e ele quer dar o quadro à mãe. Era de um cão da mãe. Se eu tenho isso na mão…
A.R.: Há um prazo?
C.R.: É raro ultrapassar o prazo. Felizmente as pessoas são pacientes e, por norma, não me comprometo. Se sei que é impossível digo que não vou conseguir. Acho que, neste momento, tenho quase uma missão, principalmente, numa coisa que eu descobri que não tinha. Como eu não tinha relação com animais, não conseguia perceber essa relação – percebia que há amor, mas não sabia a tamanha intensidade. Comecei a receber os e-mails das pessoas. “Quero o meu cão”; “Dorme comigo”; “Já me salvou tantas vezes”; “É o dono da casa.” Comentei com o meu marido que queria experimentar isto – ele já tinha tido um cão. Com periquitos não conseguimos estabelecer uma grande relação emocional. (Risos) Veio a Olívia e hoje conheço o sentimento. Acho que há aqui uma lacuna entre quem tem um animal de estimação e quem o estima. Há uma relação que é negligenciada por quem não conquista esta relação. Por exemplo, eu tenho um caso de três filhas que ofereceram um retrato de uma cadela à mãe e a mãe emocionou-se, não só por tê-la retratada, mas por serem as filhas a oferecem o presente – porque as filhas sempre disseram que a mãe gostava mais da cadela do que delas. É um reconhecimento e uma aceitação do amor que essa mulher tem pelo cão. Portugal não é pet friendly, de todo. O amor é de dentro para fora. Se eu amar um balde, amo um balde. O amor é que interessa. Acho que é muitas vezes negligenciada a relação entre o Homem e o animal. O que faço é um reconhecimento da importância que o animal poderá ter para a pessoa. Por exemplo, acho que se perdemos um cão, se um cão morre, nós deveríamos ter direito dispensa por falecimento – como temos quando morre o marido. Eu até acho que a ausência de um cão é mais sentida do que a ausência de algumas pessoas. Eu, felizmente, ainda não a experimentei. Só experimentei a ausência de pessoas próximas, a ausência do cão ainda não. Por exemplo, o meu pai morreu e eu estava com ele duas vezes por semana, porque não vivia com ele. Falava com ele todos os dias, ao telefone, e há situações em que me lembro dele: à quarta-feira, quando costumava estar com ele, e ao fim-de-semana, quando me encontrava com ele no café onde costumava estar. Sempre que passo por lá olho, sabendo que ele não está lá. Continuo a olhar. Agora, o cão… Eu vou à casa de banho e a Olívia fica aos meus pés – se não saltar para cima do meu colo; eu vou à cozinha e a cadela espera para lamber a tampa do iogurte; eu estou a dormir e a cadela, se pudesse, dormia comigo; se encontro alguém na rua e páro para conversar, a Olívia senta-se em cima dos meus pés; eu estou a ver televisão e a cadela está entre mim e a televisão. É uma ausência que se nota, quando se perde, e que deve dar muito mais ferimento porque se nota mais a ausência. Cão, gato, o que for. Os animais estimação estão muito presentes. São sombras. Acho que eu tenho… Não sei pôr isto numa frase, mas acho que tenho uma missão mais emocional do que técnica, de pintura. Esta coisa da entrevista… Há muita história. São muitas histórias. Cada história é um pedido importante e emotivo. Eu tinha um e-mail já pré-escrito para responder, mas não consigo usá-lo. Acho que quando nos começamos a fazer o que gostamos e a entregar-nos de coração, a vida vai nos levando por um caminho que espero certo. Neste momento, tenho 40 encomendas.

"Por exemplo, acho que se perdemos um cão, se um cão morre, nós deveríamos ter direito dispensa por falecimento – como temos quando morre o marido. Eu até acho que a ausência de um cão é mais sentida do que a ausência de algumas pessoas."

A.R.: É trabalho para quanto tempo?
C.R.: Para dois ou três anos. Neste momento, acho que vou começar a dar prioridade aos pedidos mais emocionais do que à brincadeira, “se eu fosse um animal, que animal seria?”. Dá-me mais gozo fazer justiça– posso estar errada na minha justiça –, procuro muito a justiça da situação. Posso ter a minha melhor amiga a pedir-me para a desenhar como se fosse um animal mas, se eu tenho uma pessoa, que eu não conheço de lado nenhum, a escrever-me, finalmente, um e-mail – e eu sei que esse e-mail está a ser escrito a chorar –, eu vou dar prioridade a essa pessoa que eu não conheço. Pela minha justiça, que não sei se é a certa. Tento ser justa. Não sou muito ambiciosa.
A.R.: Não é muito ambiciosa. Como?
C.R.: Não sou muito sonhadora. Não tenho muitos projectos. Acho que a minha ambição é ser feliz.

 "Acho que a minha ambição é ser feliz."
A.R.: É feliz?
C.R.: Sou! Sou, sou, sou. Acho que tenho alguma tristeza dentro de mim, mas é do meu perfil. Sou uma pessoa feliz.
A.R.: Essa tristeza está associada a eventos específicos da sua vida ou é uma característica de personalidade?
C.R.: Acho que é uma característica de personalidade. Sou todos os dias feliz. Sou mesmo. É um estado de espírito. Sou feliz. Tenho a vida que nunca ambicionei ter. Nunca ousei ambicionar ter a vida que tenho. Vivo do que gosto e tenho imenso gozo em pintar – embora tenha estes contratempos.
A.R.: Acorda sem despertador?
C.R.: Acordo sem despertador. Sinto-me a respeitar a minha natureza. Acho que estou numa fase boa. Não sei o que vem a seguir. Neste momento, estou numa fase boa. Não tenho a ambição de ser… Às vezes as pessoas dizem-me “devias fazer uma exposição” ou “devias começar a mudar para ser mais artístico…”. Não tenho essa ambição: a de ter uma galeria, a de ser considerada artista, não tenho. Às vezes as pessoas pecam – pecamos todos – por querer meter as coisas em sacos. Eu não me considero nem artista, nem Designer, nem artesã. Acho que sou um bocadinho de tudo. Não encaixo em nenhum saco que já exista. Por isso não tenho a ambição de chegar a lado nenhum. Espero que as mãos continuem a trabalhar e que os olhos deixem, também, porque vejo mal. Espero continuar… Gostava de… Há muita gente que gostava de ter um quadro meu e não pode pagar.
A.R.: Qual é o valor de um quadro seu?
C.R.: Neste momento estou a cobrar quase 3000€. Fui aumentando os valores.
A.R.: Quanto cobrou pelo primeiro quadro?
C.R.: O primeiro foi oferecido. O primeiro, a cobrar, 100€. Isso é giro também. O projecto chama-se Tail to Tail – de cauda em cauda – precisamente porque quando comecei a ter as aulas de pintura com o professor e fiz o tal cão para o meu amigo, outro amigo nosso viu o cão e pediu para fazer o mesmo. “Queria ter o meu Boris assim pintado”. Então eu fiz o Boris dele, penso que por 100€. Depois um amigo dele também pediu. 200€. Passou para 300€…
A.R.: Como sabia que podia aumentar o preço?
C.R.: Comecei a ter mais encomendas e as pessoas diziam-me que sim. Durante muito tempo, depois, pedi 600€. Tenho alguns amigos que pintam, e artistas plásticos, que me diziam “tu tens que subir os preços, até por nós, porque isso está fora dos valores de mercado”.
A.R.: Há muitas pessoas que a procuram e que dizem que não podem pagar?
C.R.: Algumas.
A.R.: Há pessoas que tentam negociar?
C.R.: Por acaso não. Saem de forma airosa. “Vou falar com o meu marido e volto para dizer alguma coisa”. Não dizem mais. Outras pessoas respondem: “Ok. Infelizmente não posso pagar. Tenho muita pena mas é justo; acho um valor justo. É um trabalho personalizado. Infelizmente não posso pagar.” Mas também tenho muitas pessoas que aceitam os valores. Foi isso que me fez aumentar os preços, a par da lista, a crescer cada vez mais, que me causava ansiedade. Há dois anos que digo que queria, particularmente para essas pessoas que dizem que não podem pagar, fazer quatro, cinco ou seis animais, cães – Jack Russel, Labrador, Bulldog Francês –, mais comerciáveis, que se vejam mais na rua, que não são de ninguém ou que eventualmente poderiam ser vendidos e replicados. Há dois anos que digo que queria. O que é certo é que de 10 encomendas passei para 20, de 20 passei para 40 e precisei de rever e aumentar os valores.
A.R.: Quando é que decidiu despedir-se? Despediu-se?
C.R.: Não. Estava no meio do processo – já tinha pintado três quadros –, quando, com a crise, a directora decidiu acabar com o Departamento de Marketing. Despediu-me. Fui despedida, tinha duas encomendas, já tinha pintado cinco quadros– na parede, estão expostos dois porcos: eu e o Gonçalo –, tinha tempo, estava com subsídio de desemprego… Decidi dedicar-me a isto. Ainda que detestasse, desde sempre, expor o meu trabalho – mesmo na escola.
A.R.: A sua mãe ainda é viva? Valoriza?
C.R.: A minha mãe adora. Eu acho que o meu pai era mais racional. A minha mãe mais emocional. Herdei do meu pai o preto no branco, a regra que pode não estar certa e que pode não ser justa mas que é para se respeitar. A minha mãe é mais emocional e sempre estimulou este meu lado, da pintura, sempre me deu as melhores canetas, lápis e material de desenho. É uma pessoa que, só agora é que eu percebo – porque não me lembro desse lado na minha infância –, me dá muita força. Muitas vezes digo-lhe, “acho que não vou conseguir”. “Catita, tu quando metes uma coisa na cabeça, tu consegues. Eu sei que tu vais conseguir. Tu sabes.” Eu só reconheço que isso vem dela agora, porque ela me diz isto muitas vezes, e eu tenho uma crença, de facto, de que se eu quiser, eu consigo. Trago isto comigo. Pode ou não ser real.
A.R.: Nunca sentiu necessidade de fazer provas ao mundo porque sempre teve um público que o entendia?
C.R.: Sim.
A.R.: Ainda que seja duro ouvir que não pendurariam um quadro seu em casa…
C.R.: Hoje em dia já não é. Ao princípio era mais duro porque eu não sabia se ia correr bem. Houve um dia em que eu decidi investir nisto: Criar um perfil no Instagram, mostrá-lo ao mundo, criar uma marca, fazer cartões e autocolantes para colocar no quadro. Houve dedicação, de minha parte, ao projecto. Não adorava ouvir “era incapaz”. Hoje em dia, com quarenta encomendas, é natural. Eu sou a maior fã da Paula Rego. Há muita gente que não a admira. A Paula Rego não deixa de ser a Paula Rego. Felizmente, neste momento, estou num lugar de conforto. Tenho muitas encomendas e há muita gente que valoriza o meu trabalho. Há outros que valorizam mas não gostam e há quem ache uma palhaçada. Há gostos para tudo. Já não me incomoda tanto mas, se fizesse uma exposição, era difícil estar lá. Não me sinto confortável com a crítica. Por outro lado, há uma coisa gira que eu percebi, acho que é um mal da nossa educação – pelo menos da minha e das que eu conheço. Somos mais preparados para o fracasso do que para o sucesso. Ou eu fui.

"Eu sou a maior fã da Paula Rego. Há muita gente que não a admira.
A Paula Rego não deixa de ser a Paula Rego."

A.R.: No início, quando começou a vender quadros, não dizia aos seus amigos?
C.R.: Não, não, no início do Tail to Tail não. Sabiam alguns. De Cauda em Cauda, precisamente, porque foram aparecendo, um trouxe o outro. Não costumo partilhar. Quando me perguntam o que é que faço, digo que pinto e fico, como os brasileiros dizem, encabelada. Fico com mais vergonha e sem saber como reagir quando é uma coisa boa do que quando é uma coisa má. Acho que todos estamos preparados para lidar com a crítica. Talvez tenhamos crescido com isso. Os professores criticam mais do que lisonjeiam e os pais, acho, também têm um bocadinho essa função – de nos chamar à terra e de nos tirar o sangue de crianças. Eu sinto algum desconforto com o lisonjeio e com a crítica positiva, por isso é que não divulgo o meu nome e não exponho a minha cara. É mais um projecto do que… Eu acho que o Tail to Tail tem muitas coisas de mim mas é quase um trabalho conjunto. Normalmente os artistas pintam e expõe o trabalho numa galeria. Os artistas dão de si. O público ou sente emocionalmente ligado ou não se sente e, se se sente, compra a obra. Aqui, é um processo diferente. É primeiro a pessoa, que já tem um elo emocional, que me procura. Eu pinto o que a pessoa quer que eu pinte. Eu sou a Designer de uma emoção que a pessoa tem.

"Os professores criticam mais do que lisonjeiam e os pais, acho, também têm um bocadinho essa função – de nos chamar à terra e de nos tirar o sangue de crianças."

A.R.: Então essa poderia ser a sua missão. Ser uma Designer de emoções.
C.R.: Por exemplo.
A.R.: Vejo uma cara de reprovação. (Risos)
C.R.: Estou a pensar. Sim, porque acho que é importante que eu não me esqueça do meu percurso.
A.R.: Não se quer definir como Designer.
C.R.: Sim, mas a minha formação é em Design. Há muito em mim de Designer. Tentar respeitar o que o cliente quer. Mais do que fazer o que eu quero, é sobre fazer o que o cliente espera. Eu acho que talvez essa seja a grande diferença entre mim e o artista. O artista expõe-se…
A.R.: Qual é a diferença entre a Arte e o Design? Apreciamos a Arte e utilizamos o Design.
C.R.: Acho que tem que ver com a relação emocional. O que é arte? Eu acho que um artista é alguém que nos consegue transmitir emoções e para mim arte é… Adoro a Paula Rego porque eu consigo ver emoção, consigo ler a mensagem que quer transmitir e consigo, até pela rigidez do traço, aceder à intensidade com que desenha. Há pessoas que sentem qualquer coisa com e é considerada arte um quadrado azul. A mim não me diz nada. Não sei qual é a história e nunca me preocupei – devia tentar perceber o significado –, mas não me desperta emoção nenhuma. Há pessoas a quem desperta, por isso é que vale o que vale e está onde está. O que me diferencia do artista é que eu não estou a dar de mim, eu estou a receber. O resto é técnica. Acredito que todos temos um dom, todos vimos equilibrar o mundo de alguma maneira e essa é a grande falha do nosso Sistema de Ensino: há muita gente que morre sem o ter descoberto. O facto de crescermos a querer ser todos iguais, a ler os mesmos manuais e a respeitar a mesma linha formata-nos. Tira-nos da nossa essência. A minha felicidade, neste momento, tem que ver com, todos os dias, estar em conformidade com a pessoa que eu sou. O projecto Tail to Tail é o conjunto de tudo o que vivi. Não me posso esquecer de que fui Designer e de que tenho Design no projecto. Não me esqueço, também, de que quis ser Médica Veterinária e de que estou a desenhar animais. De que quis fazer Cinema de Animação e de que há aqui, também, uma brincadeira com a animação. E pronto, o detalhe e tudo e isso… Cresci eu a acreditar que era um grande defeito meu – e sempre foi, sempre foi apontado como um defeito – ser pastelona, ser lenta, demorar muito tempo a fazer as coisas…
A.R.: Substituiria essa palavra – pastelona – por que palavra? A palavra de conotação negativa tem uma aplicabilidade positiva.
C.R.: Eu acho que sou perfeccionista.
A.R.: Feito é melhor que perfeito?
C.R.: Hoje me dia não vivo do perfeito, ainda, mas vivo na busca pela perfeição. Ter muitas encomendas ajuda-me a libertar-me desse perfeccionismo que, às vezes, é cansativo.
A.R.: O Nicolau trouxe-lhe projecção?
C.R.: Mais a Amélia do que o Nicolau. A Amélia caiu nas graças das pessoas. É toda pirosa. As pessoas adoram. Tenho muitas pessoas a pedirem-me. “Faça-me uma Amélia”. Imensa gente. Pedem-me uma Amélia exactamente igual.
A.R.: Faz, exactamente igual?
C.R.: Não. Não quero repetir e não posso. A Amélia é única e aquele retrato é único. Não repito. Pedem-me o cão vestido como a Amélia. Vesti-lo como a Amélia não posso, mas posso utilizar os mesmos tons.
A.R.: Porquê desenhar-se a si e ao seu marido como porcos?
C.R.: Foi um presente, ainda no início da nossa relação. Acho que parecemos porcos. Acho que temos a cara… Temos a cara muito rectangular, os olhos pequeninos, não sei porquê, identifiquei-nos, aos dois, como porcos. O presente era “Pérolas a Porcos”. Ele, o porco, tem uma pérola e ela, a porca, tem um colar de pérolas. Os porcos somos nós, mas as pérolas também. É um bocadinho a falta de noção das pérolas que somos. Ele exibe a pérola dele. Eu não sei se exibo, se não exibo, fico ali no meio-termo. Fazer das pessoas animais é perigoso. Há animais que se aceitam melhor do que outros. As pessoas, às vezes, não tem noção de que não têm assim tanto sentido de humor. E tem graça, mas não tem tanta emoção. Tenho um amigo que é artista conceituado – tem várias galerias espalhadas pelo mundo – e, no princípio, foi uma pessoa que me incentivou a avançar com isto. Há uma família cuja casa continuo a frequentar que tem um quadro meu – foi um dos primeiros que eu fiz – mas, quando duas crianças entram em casa, têm que remover o quadro da parede porque as crianças têm medo quadro. Comentei, com esse meu amigo, que me causava algum desconforto que a minha oferta pudesse ser a origem de um problema. Ele disse, “Catita, essa reacção é a melhor que tu podes ter. Tu dizes que não és artista, mas ser artista é isso.”

 "As pessoas, às vezes, não tem noção de que não têm assim tanto sentido de humor."

A.R.: Causar desconforto?
C.R.: Provocar emoções, boas ou más. E fui aceitando. De facto, é isso. Começar a aceitar o bom e o mau e aprender a fazer do mau o bom. Converter pastelona em perfeccionista. Fazer uma limonada dos limões. O meu pai já não apanhou isto. Nem pensar. Já nem apanhou o primeiro quadro. E às vezes penso. “A pintura nunca deu dinheiro a ninguém”. “Ninguém vive da pintura.” Afinal os quadros dão dinheiro. Mas é uma altura muito diferente. O meu pai morreu há quinze anos. Na altura não havia Instagram. Nós conseguimos publicitar-nos. A vizinha, que é só a vizinha do lado, pode ter visualizações. Acho que é muito mais justo e eu tenho algumas amigas bloggers. É discutível – eu tenho esta discussão até com o meu marido. Eu acho que não há profissão mais justa. Eu criei um perfil no Instagram para o Tail to Tail e, como não gosto de mostrar os trabalhos numa fase intermédia e também não quero dar muito de mim (tenho um perfil pessoal, partilho o que vejo – raramente partilho o que estou a fazer, mas se vejo uma coisa gira gosto de partilhar), de repente, comecei a perceber que é muita difícil alimentar e publicar conteúdos.
A.R.: Conseguir falar para pessoas certas – para as pessoas para as quais o nosso conteúdo é relevante –, também.
C.R.: Tornamo-nos responsáveis pelas relações que criamos. O facto de partilharmos a mesma educação e, por isso, o mesmo universo uniformiza opiniões e as pessoas são, de facto, preconceituosas. O que é o preconceito? Um pré-conceito. É conhecer a pessoa antes de a conhecer. “Nunca mais vais voltar a trabalhar?”, perguntam-me. “Estás à procura de emprego?”, perguntam-me. Há uma entrevista a Agostinho da Silva, pelo Miguel Esteves Cardoso – em miúdo –, que defende que vai haver um dia em que vamos viver do conhaque: vamos viver do prazer que as coisas nos dão.

 "Tornámo-nos responsáveis pelas relações que criamos."

A.R.: “Já reparou naquilo a que chamo a agonia do trabalho? Toda a nossa vida gira em função do trabalho. Quando se pergunta a alguém o que é, nunca temos a resposta: sou homem ou sou mulher. Diz-se: sou engenheiro, eletricista, médico. Só se é gente em referência ao trabalho. Um desempregado sente-se um pária e, todavia, ele é gente, a coisa mais extraordinária que se pode ser. Espero que as máquinas venham restituir às pessoas, aliviando-as do trabalho, a capacidade criativa, aquilo que nelas se oculta.” Agostinho da Silva, 1986
C.R.: Exactamente. Eu acho que eu sou mais interessante do que o que faço. Vamos falar mais de mim e de ideias que eu tenha porque as pinturas são acrílico sobre madeira. Fazemo-nos pessoas. Este ano eu o Gonçalo fizemos uma viagem ao Japão. 20 dias. Cheguei a Portugal fascinada com o Japão porque, de facto, aquilo funciona muito bem. São, só em Tóquio, 30 milhões de habitantes. O sinal de trânsito está encarnado, ninguém passa. Vêem-se séries na rua – pelos telemóveis – a atravessar a estrada porque não há um carro, de condução desenfreada, que vá bater. Não há, no metro, ninguém que fale mais alto. Há uma consciência global do espaço que ocupamos e do espaço que os outros ocupam. Por outro lado, achei-os muito focados nas suas vidas individuais. No Japão, justificam o facto de não terem filhos com trabalho. “Eu trabalho, não tenho tempo para isso”. Têm muito a coisa da honra, de trabalhar para o bem comum – mesmo quando se reformam. Todos os dias saem de casa e arranjam um motivo para trabalhar. Com 70 e 80 anos. Têm uma necessidade de ser úteis para a sociedade, com o trabalho. Vêem-se muitos carrinhos de bebés nos parques, mas têm três ou quatro cães. Não têm filhos. O índice de natalidade é baixíssimo. Mas eu vinha fascinada com a organização daquilo. Logo a seguir, aproveitei uma estadia em Pipa, de três 3 dias, com uma amiga. Que chapada! Fomos as duas, com a tripulação, dançar forró. Estava lá um nativo que nos puxou para dançar. Ele dançava lindamente mas era um homem que não era apetecível como homem, pelo que nunca teria vontade de dançar com ele. Veio buscar uma mulher, veio buscar outra e veio buscar-me para dançar. Eu sou péssima a dançar. São dois pés esquerdos. Ele tentou uma vez, tentou duas vezes. Eu tentei dançar sempre com os meus namorados, com amigos meus e a conversa foi sempre a mesma. “Vá, Catita, dois para a esquerda, um para a direita.” Este fez o mesmo uma vez. Depois respondeu. “Te entendi, me leva que eu vou”. A dança é um ritual de acasalamento e ele reconheceu que mulher é que eu sou. Nunca consegui bater o passo certo com ninguém mas, com ele, eu dei o ritmo e, pela primeira vez, consegui dançar. Pela primeira vez na vida tinha ali uma dança, com um homem horroroso, medonho. “Que esperto! Ele reconheceu a fêmea!” –, pensei, que é uma coisa de que nos estamos a afastar. Estamos a afastar-nos da nossa intuição. Isto tem que ver com o acasalamento, com o que está a acontecer no Japão – não prolongamos a espécie se caminhamos para um universo individual – e com o instinto, com a nossa a capacidade para predizer o perigo e ajudar quem precisa de ajuda. O Brasil ainda é animal. Achei mais bonito o caminho percorrido – o lugar de onde viemos – do que o lugar para onde nos dirigimos.


"Achei mais bonito o caminho percorrido – o lugar de onde viemos – do que o lugar para onde nos dirigimos."

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

VIKTOR EMIL FRANKL: O HOMEM EM BUSCA DE UM SENTIDO



No quesito literário, a minha vida foi pautada pela ausência de referências*. O meu pai treinara a memória para recordar, pelas décadas que o hábito não cumpriu, os livros que lera ainda adulto emergente mas o hábito, perdido no bulício dos dias, custar-lhe-ia a assunção de que na literatura, como na vida – em geral –, aplica-se um princípio fatalista: o que não melhora esmorece.
Esta foi uma caminhada solitária.
Margarida Rebelo Pinto e Nicholas Sparks, no começo, manutenção e despertar para literatura melhor. Eça de Queirós, José Saramago, Jane Austen, Emily Bronte, Aldous Huxley, Jack Kerouac, etecetera, depois. À data da primeira Licenciatura – Ciências da Comunicação, Universidade do Minho –, um desvio sob influência da personagem que Renée Zellweger interpreta, Bridget JonesMen Are From Mars, Women Are From Venus –, para regressar, à data de ingresso no Mestrado Integrado em Psicologia, à Literatura Clássica.
Frequência em Unidades Curriculares, Artigos Científicos e Manuais Académicos. Arrumo os livros de autoajuda, versões simplificadas de uma Ciência – a saber, a Psicologia – e passo a resistir em ceder a sugestões que pouco problematizem a vida. O Homem em Busca de Um Sentido, de Viktor E. Frankl, merece esse lugar – vulgo, o da estante – sem que se lhe tenham sido poupadas as costumeiras reticências de então.

“Nascido na Áustria em 1905, Viktor Emil Frankl formou-se em Neurologia na Universidade de Viena, onde viria a doutorar-se em Psiquiatria. Especializado no estudo da Depressão e do Suicídio, viria a ser influenciado no início por Sigmund Freud e Alfred Adler, de quem se afastaria mais tarde. Ao desenvolver um programa pioneiro junto dos estudantes vienenses, que reduziu a zero a taxa de suicídios, foi convidado a trabalhar com Wilhelm Reich.
A sua brilhante carreira viria a ser interrompida pela ascensão do Nacional Socialismo. E quando lhe ofereceram a hipótese de emigrar, decidiu permanecer na Áustria, para cuidar dos pais. Em 1942, foi deportado para um gueto, e mais tarde para o campo de concentração de Auschwitz.
No fim da guerra retomou o seu trabalho, imprimindo-lhe uma direcção completamente nova. Desenvolveu a Logoterapia, que divulgou como professor em várias universidades de Viena a Harvard. Quando morreu, aos 92 anos, tinha recebido 29 doutoramentos Honoris Causa e a sua obra estava traduzida em mais de 40 línguas.”

Em Nota Introdutória, Harold S. Kushner escreve que “este é, antes de mais, um livro sobre sobreviventes”. Três capítulos – I. EXPERIÊNCIAS NUM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO; II. LOGOTERAPIA SIMPLIFICADA; PÓS-ESCRITO 1984 – compõe um livro que, atrevo-me a escrever, é para sobreviventes. Quem são – hoje – os sobreviventes? Definir sobrevivência sob o pano de fundo que é o Campo de Concentração pode parecer um exercício desonesto: a nossa vivência é, em condições, um privilégio. N’O Homem em Busca de Um Sentido reforço o que já sabia: a subjectividade individual vence o que consideramos objectivo e, mais ainda, a subjectividade do outro. Cada um decide ao que sobreviver.
Podemos ajudar a decidir pelo que sobreviver. “O preso que perdesse a fé no futuro – o seu futuro – estava condenado. Ao perder a crença no futuro, perdia igualmente o controlo espiritual; deixava-se decair e ficava sujeito a um definhamento físico e mental. (…) Aqueles que conhecem a estreita ligação entre o estado de espírito de uma pessoa – a sua coragem e esperança, ou a falta dela – e o estado de imunidade do seu corpo perceberão que a perda súbita de esperança e de coragem pode ter um efeito mortífero.”
Reestabelecer o estado de espírito de uma pessoa é apontar uma oportunidade de sentido – um objectivo futuro, um propósito, uma meta – que valha as “terríveis condições da sua existência”. O infortúnio não valoriza o sentido – não acrescenta valor, não é um mal necessário –, e não o desvaloriza. “Quando um homem descobre que o seu destino é sofrer, terá de aceitar esse sofrimento como a sua missão. (…) A sua oportunidade única reside na forma como carrega o fardo.” Carregar o fardo, para Viktor E. Frankl, é expressão cunhada de carácter performativo: respondemos ao destino assim que agimos.
A Busca de Um Sentido pode descrever uma “angústia existencial, mas não é de forma alguma uma doença mental”. Para a angústia existencial, “o papel do logoterapeuta consiste em alargar e ampliar o campo visual do paciente, de modo a que todo o espectro de sentido potencial se torne consciente e visível para ele”. A Logoterapia coloca o paciente no centro do processo – como responsável pelo sentido da vida – e defende que a transitoriedade da existência – a morte – não destitui o sentido. A transitoriedade da existência é a responsabilidade com a realização. “Os únicos aspectos realmente transitórios da vida são as suas potencialidades; mas, logo que são efectivadas, tornam-se realidades nesse preciso instante; são salvas e entregues ao passado, no qual são resgatadas e preservadas de transitoriedade”.
Para Viktor Emil Frankl, a liberdade é limitada mas o sentido da vida é incondicional. “Não se trata de uma liberdade em relação às condições, mas de uma liberdade de tomar posição relativamente a essas condições.”

Recomendado.

*António Aleixo, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós