sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

PEDRO CHAGAS FREITAS


Pedro Chagas Freitas – 29 de Setembro de 1979, Guimarães – tem 26 livros publicados. Desses, pelo menos 17 foram financiados por si, em diferentes editoras. Em 2010 publicou 10: foram 10 livros publicados num só ano. A obra Prometo Falhar, 2014, aproxima-se agora de um milhão de vendas. Para as apresentações dos livros, Pedro Chagas Freitas enviava e-mails a caras conhecidas – que não o conheciam – e algumas aceitavam o desafio Francisco Penim, Gustavo Santos, Carlos Alberto Moniz, Adolfo Luxúria Canibal… Como se pode ler na Sábado, o objectivo era simples, conquistar visibilidade. Conquistou.
Em Dezembro de 2018, Frederico Pombares – argumentista que participou na escrita do Roast Toy – escreveu no Instagram: “A vantagem de trabalharmos com pessoas inteligentes é esta (…). O Pedro revelou-se uma brilhante surpresa. Não só se tornou dono do texto como a sua entrega foi irrepreensível. Deu-se à morte, para depois se revelar um sniper. Respeito.” 
Fiquei curiosa. Enviei-lhe um e-mail a pedir-lhe uma entrevista. Pedro Chagas Freitas prontamente aceitou. Ontem, no Hospital Pedro Hispano, encontramo-nos e o Pedro deu-me a entrevista com um bebé de um ano – o filho, Benjamim – no colo. Perguntaram-me hoje, por causa da fotografia, se sou uma grande fã do Pedro Chagas Freitas – o autor. Não sou. Estou feliz pela oportunidade de partilhar o momento de ascensão de mais um protagonista. O PedroChagas Freitas não desiste.

Ana Rocha: Quem é o Pedro Chagas Freitas?
Pedro Chagas Freitas: Um gajo que escreve cenas. Se fosse isso o que nos define, seria isso, mas eu julgo que não: julgo que ninguém sabe quem é, verdadeiramente. Tento ser uma pessoa e já não é pouco. Pensamos que ser pessoa é algo que sabemos instintivamente mas, às vezes, precisamos de contrariar instintos e de ser capazes de ser uma pessoa nesse sentido: o de nunca ferir com a intenção, por exemplo, julgo que isso já nos define. O sermos capazes de ter empatia, connosco e com os outros. 

"Tento ser uma pessoa e já não é pouco. Pensamos que ser pessoa é algo que sabemos instintivamente mas, às vezes, precisamos de contrariar instintos e de ser capazes de ser uma pessoa nesse sentido: o de nunca ferir com a intenção, por exemplo, (...)."

A.R.: Numa entrevista diz considerar-se autor, não escritor. Qual é a diferença?
P.C.F.: Autor soa a alguém que inventa – já não digo que escreve porque gosto de fazer outras coisas para além de escrever. Porque é que não digo que sou escritor? Pela representação da criatura iluminada que tem um dom que os outros não têm. Eu não sinto nada disso. Não acho que tenha um dom, não acho que seja iluminado, não me considero um escritor nesse sentido. Se o escritor for alguém que escreve coisas, sim, sou escritor; se for alguém iluminado, não sou escritor. Os jovens, sobretudo, têm a ideia de que a escrita é difícil e extraordinária – mas para escrever não precisamos disso.
A.R.: Não é preciso um dom?
P.C.F.: Não, não é preciso dom nenhum.
A.R.: Mas ajuda?
P.C.F.: Eu não acredito que seja necessário o dom. A minha forma de escrever é, de facto, única mas a forma de escrever de cada um de nós é única porque a nossa perspectiva é única. Só faz sentido assim, somos pessoas e somos diferentes. O que escrevo é diferente, mas não me sinto iluminado e não sinto que nasci para escrever.
A.R.: Então para o que é que nasceu? Qual é o seu propósito de vida?
P.C.F.: Eu nasci para amar, para rir, para me divertir. Eu quero acreditar que nasci para isso, para aproveitar todas as oportunidades que a vida tem para me dar. Aliás, até seria triste pensar que nasci para trabalhar ou para escrever livros.
A.R.: É uma pessoa realizada?
P.C.F.: Não, nunca, nunca… Espero nunca ser. Estou muito longe de estar realizado. Tenho momentos em que penso que, de facto, valeu a pena e fiz bem – mas estou a milhas de estar realizado, espero eu, tenho tanta coisa para fazer ainda.

"Hoje, sobretudo com as redes sociais e com o voyerismo, pensa-se que ser famoso é uma profissão. Eu nunca quis ser famoso. Mas eu preciso, para ter leitores, de ter visibilidade."

A.R.: Marketing Pessoal: narcisismo ou de protagonismo?
P.C.F.: Depende do objectivo do Marketing Pessoal.
A.R.: No seu caso…
P.C.F.: No meu caso, o objectivo era ter leitores. Não é uma questão de narcisismo. Acaba por ser sobre protagonismo porque preciso de visibilidade.
A.R.: Publicou mais de 20 livros. Pelo menos 17 desses livros foram financiados por si, em diferentes editoras. Em 2010 publicou 10. Foram 10 livros publicados num só ano. Os que o criticam, conhecem-lhe o percurso?
P.C.F.: Este é o 26º livro. Eu não faço ideia do que as pessoas pensam ou sabem. O que eu sei é o que eu fiz, faço e o que eu gosto de fazer. Isso eu sei e domino. O resto não é nada que me preencha. Quando digo que não estou realizado, não tem que ver com o que os outros acham daquilo que eu faço, falo de realização na minha relação comigo mesmo. Acho que posso fazer melhor. É só isso. Hoje, sobretudo com as redes sociais e com o voyerismo, pensa-se que ser famoso é uma profissão. Eu nunca quis ser famoso. Mas eu preciso, para ter leitores, de ter visibilidade.
A.R.: Quis tornar-se numa marca?
P.C.G.: Não tomei essa decisão, um dia, mas quando penso sobre um autor, penso sobre um conjunto de características – e o autor é uma marca nesse sentido. A minha ideia foi sempre a de ter leitores. Eu fui à procura dos leitores e usei os instrumentos que tenho à mão para chegar aos meus leitores. Uma coisa é consequência da outra.  Eu acredito que um livro só existe quando tem um leitor, pelo menos. 

 "Eu acredito que um livro só existe quando tem um leitor, pelo menos."

A.R.: Massificar a obra não é precisamente o factor que contribui para que lhe desvalorizem o trabalho?
P.C.F.: Precisa de perguntar a essas pessoas, eu não faço ideia. É um desperdício. Eu estou tão entretido a fazer aquilo de que gosto que não faz sentido perder tempo a pensar nisso.
A.R.: O que é que sentiu quando o convidaram para participar no Roast Toy?
P.C.F.: Primeiro fiquei surpreendido, depois adorei. O Roast é, de facto, um conceito fantástico que agora está a chegar a Portugal em força. Espero que continue. Surpreendido porque não sou humorista e, à partida, seriam os humoristas que participariam – no Roast Toy, só eu e a Joana Amaral Dias é que éramos de outra área. Adorei porque o Roast é uma espécie de Fight Club, uma espécie de limpeza de alma e é único. Recomendo, quem nunca participou ou assistiu a um Roast, a fazê-lo. A partir daí não há desafios.
A.R.: Como é que se sentiu, no momento?
P.C.F.: Foi único. Foi tão maravilhoso que agora decidi fazer um espetáculo também. Adorei. Adorei aquele momento em palco. Adorei o momento de atacar os outros. Adorei o momento de ser atacado. Estávamos ali seis ou sete pessoas a insultarmo-nos a uns aos outros de forma, espero eu, interessante. É uma lavagem de alma inacreditável. Recomendo, recomendo. O mais incrível é que toda a gente sai de um Roast feliz e valorizada. Eu fiquei fã de cada uma das pessoas que participaram e eles passaram o tempo todo a falar mal de mim. Estou vacinado para tudo.
A.R.: Frederico Pombares, depois do Roast Toy, fez uma publicação em que escreveu que lhe admira a inteligência porque teve a capacidade de se dar à morte para depois se revelar um sniper.
Pedro Chagas Freitas [interrompe]: Definição brilhante!
A.R.: Subestimarem-lhe a inteligência é a sua vantagem competitiva?
P.C.F.: Não é uma competição. Não faço ideia. Eu respeito quem não tem preconceitos e quem vê pelos seus olhos. Se o fazem e dizem-me que não gostam os meus livros, eu respeito. Se é por preconceito… O preconceito é uma forma de burrice.

 "O preconceito é uma forma de burrice."

A.R.: Quem é que não gosta mesmo de ler?
P.C.F.: Não vou dizer. Se fosse um Roast…
A.R.: Perguntava-lhe se subestimarem-lhe a inteligência é a sua vantagem competitiva e, nesse contexto, porque li numa entrevista que os homens pedem-lhe conselhos com frequência, gostava de saber a sua opinião: os homens sobrestimam o que as mulheres sentem por eles e subestimam o que as mulheres fazem sem eles?
P.C.F.: Não faço ideia. Digo para fazerem o que pensarem que é melhor. Não sou um guru, sou um anti-guru, não sou um especialista em questões amorosas. Eu escrevo. Sou autor.
A.R.: Os homens precisam de mudança, transformação ou ruptura?
P.C.F.: Não sei responder. Eu acho que os homens, assim como as mulheres, precisam de amor.
A.R.: O que é o amor?
P.C.F.: É a minha capacidade de olhar para o outro e dar o meu melhor em nome dessa pessoa porque me faz bem também. É altruísmo.
A.R.: Escreve sobre amor e vende – muito. Significa isso que o amor, na hipermodernidade, orienta-se pela lógica do consumo?
P.C.F.: A minha visão é pessoal e não estudei o assunto. O que eu sinto é que as tecnologias são uma ferramenta e é o uso que porventura pode orientar-se pela lógica do consumo. O problema não é a ferramenta. É o uso que se faz dela. Nesse sentido, o amor pode ser um produto.



terça-feira, 29 de janeiro de 2019

PRISCILLA DE SÁ


Ana Rocha: Quem é a Priscilla de Sá? 
Priscilla de Sá: É uma mulher que descobriu que a vantagem de ser Priscilla de Sá preside em todas as merdas que aconteceram na vida dela – não apesar de, mas justamente por. Eu passei a vida inteira a tentar remendar a minha história para ter uma história perfeita, apresentável, bonita para as pessoas, enquadrada, encaixada… Mas eu descobri que o meu tesouro estava justamente nos atalhos, na origem confusa, nas escolhas erradas e só a partir dessa descoberta é que eu consegui ser uma pessoa mais realizada – não digo plenamente, acho que ninguém é plenamente realizado, mas sou uma mulher a caminho da realização plena. Nasci em São Paulo, a 14 de Julho de 1975, e sou filha de pais paulistanos. Há portugueses do lado do meu pai, espanhóis do lado da minha mãe, alguma origem indígena e austríaca também – faltou o negão para dar uma cor (risos). Criada numa cidade grande e agitada, fui uma criança de apartamento, não aprendi a brincar na rua. Os livros e a minha escrita eram a minha viagem.



A.R.: Qual é a tua formação? 
P.S.: Como gostava de livros, eu dizia que eu queria ser escritora e perguntava “qual é a faculdade para ser escritora?”, mas não há faculdade, e os escritores, inclusive, morrem de fome. “Então, como trabalhar, a maior parte do tempo, a escrever e a comunicar?”, – faz Jornalismo! Lá fui eu. Fiz Jornalismo para descobrir que a última coisa que eu iria poder fazer, como jornalista, era escrever o que eu bem entendia: eu ia escrever o que os outros me mandassem. Passado o choque inicial, e logo no começo da faculdade, houve outro evento que também foi determinante para mudar o meu rumo, a gravidez. Eu engravidei no segundo mês da faculdade. Isso fez-me tomar decisões profissionais considerando uma criança, considerando um bebé. Eu não podia ser a Jornalista que trabalha de graça durante cinco anos à espera de uma oportunidade, de um estágio, porque eu tinha que levar o bacon para casa. Isso lançou-me no empreendedorismo. Eu montei um jornal quando o meu filho já tinha nascido. Enveredei pelo Jornalismo e atrapalhei-me porque, quando eu quis voltar para o mercado de trabalho, ficou mais complicado e parecia fazer menos sentido ainda… Mas como eu era filha de mãe louca e pai mentiroso, eu queria consertar a minha história. 
A.R.: Mãe louca e pai mentiroso? 
P.S.: A minha mãe é o que hoje se chama Bipolar mas, na altura, se chamava de Psicose Maníaco-Depressiva. Tinha episódios frequentes, passava muito tempo internada e quando eu andei pela primeira vez, por exemplo, ela não viu porque estava num Hospital Psiquiátrico. O meu pai era um sujeito mentiroso. Enganava as mulheres, tinha um monte de famílias paralelas, inclusive nós. 

"Qual é a diferença entre Comunicação e Psicologia? É que as palavras, em Comunicação, informam mas, em Psicologia, transformam."

A.R.: A tua mãe sabia? 
P.S.: Sabia, quem não sabia era eu, ela sabia porque ela estava na ponta – era a última da cadeia – e sabia de todas as outras, as outras é que não sabiam dela. Então, quando nasces num lar de pouca segurança psicológica, tu queres consertar a tua história. Uma das formas de consertar a história é compreender, e eu tinha essa curiosidade pelo comportamento humano. Quando a minha vida fica muito confusa, eu digo “eu vou estudar!”. O meu jeito de fazer o reset numa situação complicada é estudar. Sempre. Foi o que eu fiz. Fui fazer Psicologia. Eu queria ir além da Comunicação: queria uma comunicação que transformasse e queria que essa informação fizesse as pessoas mais felizes, mais completas e menos loucas. Qual é a diferença entre Comunicação e Psicologia? É que as palavras, em Comunicação, informam mas, em Psicologia, transformam. 
A.R.: O teu pai morreu quando tinhas 10 anos. Qual foi o impacto da perda da figura paterna? 
P.S.: O impacto não foi só pela perda da figura paterna, foi pela morte do herói junto. Porquê?, porque eu não sabia dos erros dele; ele era um homem perfeito, um pai perfeito para mim. Quando ele morreu, eu ainda não sabia que ele era um mentiroso compulsivo. Quando ele morreu, a minha mãe enlouqueceu, foi internada, e eu fui para casa de uma tia. A minha tia contou-me todas as verdades sobre a minha família que eu não sabia; que as ausências da minha mãe eram porque ela tinha uma doença psiquiátrica; que o meu pai era casado e nós eramos a segunda família, ou a terceira. E eu, como uma criança inteligente, nunca tinha querido olhar para o facto de que ele não tinha roupas em casa: não havia roupas dele em casa!, é óbvio que ele não morava lá, mas ele tinha uma rotina muito certinha connosco… Ele chegava pela hora do Jornal Nacional, oito da noite, jantava connosco, assistia ao jornal, ficava a brincar comigo pela sala, deitava-me na cama para dormir, contava-me uma história e, quando eu acordava, ele não estava mais lá… Mas era porque “o papai já foi trabalhar”. Foi a morte do herói. Foi mais do que a morte dele, física, e toda a perda do padrão de vida. Descobrir que o meu pai pode ser um filho da puta, que um homem pode ser um filho da puta, a pessoa em que tu mais confias… Nós eramos muito cúmplices. Talvez por ele ser muito velho, ele não me tratava com filha, era um pai-avô. Então, ele educava-me menos, impunha menos limites e brincava mais. Como criança, eu adorava. Quando ele morreu, nós não falávamos. Ele ia visitar-me e eu ficava muda, o tempo inteiro, porque eu me sentia traída. Eu soube das verdades quando ele ficou doente e, dessa queda até à morte, que deve ter durado cerca de um ano, não nos relacionamos.


"Tens que poder insultar o teu pai enquanto ele está vivo, porque depois de morto, quem é que vai insultar um defunto? Todo o defunto vira santo. É uma coisa muito complicada. Ele morreu e eu fiquei com a decepção, com o grito na garganta, sem o poder insultar. É horrível não poder acertar contas."


A.R.: Culpaste-te por isso? 
P.S.: Culpei-me por não ter, em vida, dito “seu filho da puta!”. Tens que poder insultar o teu pai enquanto ele está vivo, porque depois de morto, quem é que vai insultar um defunto? Todo o defunto vira santo. É uma coisa muito complicada. Ele morreu e eu fiquei com a decepção, com o grito na garganta, sem o poder insultar. É horrível não poder acertar contas. Culpei-me depois por causa disso. 
A.R.: Com um passado experiências pessoais conturbadas, porque tomas a decisão de abandonar profissionalmente a Psicologia? 
P.S.: Em Psicologia, eu não me via como Psicoterapeuta porque eu achava o processo pouco dinâmico. Primeiro, eu tinha experiência com a minha mãe – a minha mãe tinha frequentado terapeutas a vida inteira – e isso não fez dela uma pessoa melhor, ou uma mãe melhor. Segundo, eu mesma, acreditando na Psicologia como ciência, questionava os benefícios da Psicologia como terapia. Então perguntava-me como me poderia dedicar sem certezas de resultado efectivo. As pessoas partilhavam melhoria no sintoma – mas a melhoria no sintoma não aconteceria da mesma forma se elas falassem com o pastor da igreja ou com uma amiga no café? Quem garante que é o que eu estou a fazer que traz alívio para aquela pessoa? Eu não me via a fazer isso, daily basis. Eu achava pouco dinâmico ficar numa sala com uma pessoa a falar comigo sobre a vida dela e eu a anotar. Quando chega ao fim? Para onde é que isto vai? E eu ouvia mais do que tinha que falar. Mesmo com boas experiências no estágio – bons atendimentos, bons casos, as pessoas agradeciam –, eu sentia que não ajudava nada. Eu sentia-me uma fraude nessa história. O Jornalismo era uma frustração, eu não me tinha tornado na escritora que eu queria quando era criança, a Psicologia era uma incerteza – porque eu não tinha propriedade para dizer que era Psicoterapeuta com orgulho –, então, eu tinha uma mistura de síndrome de impostora com vazio existencial. Fiquei assim por muito tempo. Uns dez anos. O meu senso de valor pessoal… Todo o mundo diz que eu sou tão inteligente, e eu não consigo fazer nada com isso: não consigo fazer dinheiro, não consigo fazer revolução, não consigo melhorar a minha vida com isso.


"Eu acabei por deixar os caminhos da minha vida pessoal determinarem mais os caminhos da minha vida profissional do que o contrário."


A.R.: Como resolves essa crise? 
P.S.: Eu acabei por deixar os caminhos da minha vida pessoal determinarem mais os caminhos da minha vida profissional do que o contrário. A minha prioridade número um era ser mãe: cuidar do meu filho, garantir que não lhe faltava nada e estar presente; isso limitou-me em algumas escolhas profissionais. A prioridade número dois era amada e ser amada. Então, apaixonei-me por um sujeito português e perguntei a mim mesma como é que, a partir disso, eu poderia evoluir profissionalmente enquanto me ausentava –  porque o trabalho dele não lhe permitiria. Descobri que havia uma nova abordagem em comportamento, uma metodologia recente – o Coaching –, que não tinha um setting tão rigído quanto o da Psicoterapia, que poderia ser conduzido por meios electrónicos e que, o melhor, trazia resultados rápidos para quem se submetia e mais retorno financeiro. Fiz uma formação. Life Changing. Foi muito sobre mudar a minha vida, sobre me reconectar com os meus valores e sobre desenvolver o senso de missão que eu [não] tinha. Eu adquiri isso com o Coaching, naquela experiência curta de formação e, se aconteceu comigo, aconteceria com outras pessoas. Era isso que eu queria fazer, queria levar esse tipo de transformação para outras pessoas. Para além de que, no Coaching, ainda que não central, o papel do Coach é mais activo do que o do Psicoterapeuta. E, para mim, é importante sentir que, de algum modo, eu estou a conduzir alguma coisa. 
A.R.: O que é o Coaching? Como é mais activo? 
P.S.: O Coaching é uma assessoria que funciona por meio de perguntas que catalizam respostas de reflexão na mente das pessoas. Em Psicologia são feitas menos perguntas, menos intervenções, e o relato corre por conta dos caminhos do inconsciente do cliente. No Coaching, tens um script mais ou menos estruturado que é com foco num objectivo específico e pontual. Então, não deixas derivar para outras coisas. Não deixas a sessão correr muito para outras coisas, a menos que importem para aquele foco, para o objectivo principal. Então, eu tenho uma postura mais activa, ainda que o cliente esteja no centro do processo e tenha por desafio encontrar as respostas no tempo dele. Tenho uma posição mais condutora, que me dá mais prazer e que me dá mais a sensação de que eu estou a ajudar a promover uma transformação, um resultado prático, tangível. Eu preciso de fazer com que o meu cliente saia da minha presença menos angustiado, mais aliviado e mais seguro quanto ao próximo passo. E se essa pessoa sai da minha presença assim, eu sinto que ganhei o dia. 

"Quando ajudas um adolescente, ajudas [só] um adolescente, mas quando ajudas uma mulher, ajudas um ecossistema inteiro. Em termos de impacto, aquele era o público que me ia dar o senso de que eu estava a realizar uma coisa relevante. Comecei a trabalhar com mulheres e tudo o que aconteceu depois, aconteceu pelas oportunidades que as mulheres me deram."

A.R.: Como começas a trabalhar como Coach? 
P.S.: O Coaching não era muito conhecido no Brasil. Era conhecido entre gerentes de empresas multinacionais porque já tinham visto alguém na matriz americana fazer ou falar a respeito. O que é que eu tinha em mãos na época? Eu estava a viver numa cidade no interior de São Paulo, em que eu não tinha amigos, conhecidos, não tinha nada – era uma espécie de cidade-dormitório: as pessoas trabalhavam em São Paulo e dormiam lá – porque eu achei que lá era mais fácil criar um filho pré-adolescente. O único contacto que eu tinha era a escola dele. Quando eu fiz a formação em Coaching e tive a sensação de eu gostaria de ter descoberto estas coisas com 15 anos para não ter dado tanta cabeçada, eu pensei “e se eu fizesse isto com o meu filho e com os amigos dele?, será que funcionaria?”. Para evitar que passassem por uma série de sofrimentos desnecessários, para aumentar o senso de planeamento, o senso de futuro, o senso de propósito que uma pessoa tem que ter. Então eu comecei a adaptar as ferramentas de Coaching para adolescentes voltados à escolha da profissão. Eu ofereci isso na escola em que o meu filho estudava. O director da escola confirmou que eu era jornalista e fizemos um acordo: eu tinha acesso aos alunos – e podia vender o meu serviço de Coaching – se eu desse aulas de redacção lá. Eu fui. Tornei-me professora de adolescentes, de produção de texto. À sexta-feira tínhamos sessões de Coaching e o resultado foi espectacular. Hoje são todos jovens de 25, 26 27 anos, no mercado de trabalho, a crescer e a procurar-me para orientação. A decidir a empresa, entre fazer MBA ou procurar experiência internacional, alguns contratam-me para fazer palestras na empresa deles, enfim, deu muito certo. E eu entendi que se resulta com adolescentes, resulta com qualquer público. Como é que o meu trabalho escalou e ganhou vulto? Quando as mães desses adolescentes, vendo a transformação no comportamento deles, me procuraram. “Faz comigo o que fizeste com o meu filho” porque “quando escolhi a minha profissão, eu não estava certa do que eu queria”, “eu não sou feliz no meu trabalho” ou “eu abandonei o mercado de trabalho para ser mãe, tornei-me dona de casa e não sei o que fazer para ter uma vida minha”. Eu percebi que tinha um filão precioso nas minhas mãos. Quando ajudas um adolescente, ajudas [só] um adolescente, mas quando ajudas uma mulher, ajudas um ecossistema inteiro. Em termos de impacto, aquele era o público que me ia dar o senso de que eu estava a realizar uma coisa relevante. Comecei a trabalhar com mulheres e tudo o que aconteceu depois, aconteceu pelas oportunidades que as mulheres me deram.


"A minha missão é mesmo empoderar mulheres e as minhas decisões, inclusive pessoais, passam por esse filtro. Se eu estou numa relação meio blargh, com um homem que não me respeita muito, eu, como pessoa física, poderia aceitar, mas como Priscilla de Sá – a mulher que empodera outras mulheres –, não."


A.R.: Quem é hoje a Priscilla de Sá? 
P.S.: Hoje a Priscilla de Sá é uma mulher que ajuda a empoderar outras mulheres. O meu trabalho é um tripé: conteúdo, palestras e Coaching. O Coaching está a tornar-se cada vez mais em Mentoria e menos em Coaching. Eu sinto que está na hora de eu delegar clientes de Coaching para outras Coaches e tornar-me mentora de Coaches –  que é um trabalho  que me dá mais prazer ainda, o de formar multiplicadoras. A minha missão é mesmo empoderar mulheres e as minhas decisões, inclusive pessoais, passam por esse filtro. Se eu estou numa relação meio blargh, com um homem que não me respeita muito, eu, como pessoa física, poderia aceitar, mas como Priscilla de Sá – a mulher que empodera outras mulheres –, não. Por uma questão de coerência, pela minha autoestima. A minha autoestima é o sumo do meu trabalho. Se eu não estiver bem, eu não consigo ajudar. Durante muito tempo a minha carreira aconteceu em função das minhas escolhas pessoais. Hoje, a minha vida pessoal acontece em função da minha missão de vida. 
A.R.: Quais foram os caminhos conturbados de que tanto falas? 
P.S.: Envolver-me com os homens errados e ter um filho de produção independente – é conturbado, por mais que seja uma decisão da qual não me arrependo, só me orgulho – são caminhos difíceis. São muitos atalhos. Comecei um curso, uma formação numa universidade e percebi que aquele mercado de trabalho era desafiante, comecei de novo… Foram muitos recomeços. Eu só tenho 10 anos de uma carreira linear. Foram 15 anos à deriva. No fim, tudo se aproveita – a experiência do que se viveu é indissociável –, mas foi muito pouco focado. Então, gente que se acha velha com 25?, eu dou risada.


"Para mim foi fácil ser mãe solteira. Para o meu filho não foi fácil ser meu filho.
Eu fui muito exigente."


A.R.: Por seres mãe solteira, foste julgada? 
P.S.: Eu só não era julgada porque eu não procurava aplausos da plateia que poderia me julgar. Eu era outsider – sempre andei no meio das pessoas mais velhas, dos artistas, dos fotógrafos, dos boémios, do pessoal nocturno, que não se encaixava num trabalho das 9h às 18h – e acho que me sai tão bem no papel de mãe... As pessoas olhavam para o meu filho e julgavam-nos a partir do comportamento dele: se desse certo, não me julgavam por ser mãe solteira; se desse errado, diriam que “não tem pai”. Eu acho que fiz tudo para que nunca pudessem dizer “não tem pai”. Para mim foi fácil ser mãe solteira. Para o meu filho não foi fácil ser meu filho. Eu fui muito exigente. Por exemplo, com seis meses ele comia bolachas com a mãozinha por baixo do queixo, para não deixar a migalha da bolacha cair ao chão. Da primeira vez que fomos à praia, ele tinha um aninho, quando pôs o pé na areia e sujou, ele olhou para mim com a maior cara de medo e começou a chorar porque achou que ia levar uma bronca. Então eu compreendi que fui muito rígida. Ele tinha horários para tudo. Muita disciplina. Não acho que seja mau – ajuda-o mais do que o atrapalha na vida profissional –, mas eu sinto que, talvez, se eu tivesse uma família de comercial de margarina – papai, mamãe e filhinhos –, eu relaxaria um pouco mais, porque eu não queria dar margem a que ninguém falasse “não tem pai”. E ele realmente foi o filho que correspondeu. Acho que tem que ver, também, com a índole dele: por mais que eu fosse rígida, ele poderia romper com esse script, mas foi exemplar. 
A.R.: Em Portugal, as pessoas estão preparadas para o Coaching? 
P.S.: Eu preciso de ser muito honesta e grata: a minha primeira cliente de Skype – nem era Skype, era Messenger – foi uma portuguesa, de Lisboa. Eu não sei se se trata de estar preparado porque isso seria dizer, talvez, que o Coaching é demasiado bom para Portugal. Talvez Portugal não precise ou não saiba que precise, talvez não tenha demanda clara. Os portugueses são tangíveis. Aprenderam a valorizar conquistas materiais. Isso é muito válido e muito importante. Então, por exemplo, no Brasil, Engenheiro não é prenome de ninguém – aqui é prenome das pessoas. Aqui, agentes imobiliários são superstars mas, no Brasil, não. Isso mostra o quanto vocês valorizam a propriedade, o património, a terra, o chão, aquilo que se pode pegar, vender, valorizar, enfim, é da própria natureza desbravadora do português ampliar o mundo. Por isso talvez seja complicado para o português identificar valor em resultados intangíveis como felicidade, realização, propósito. É mais fácil para um português tomar um antidepressivo quando as coisas não estão bem a abrir-se acerca disso com outra pessoa. Não que no Brasil seja muito diferente, mas nós temos – porque somos América e um país multicultural – uma influência de novo mundo. Os americanos, nas multinacionais, têm a cultura da produtividade e o Coaching entra para fazê-los produzir mais. O que eu sinto é que Portugal não vê demanda naquilo que eu faço. Palestras para mulheres, empoderamento feminino… É coisa de feminista que não depila o sovaco? É difícil encontrar um lugar para falar sobre as questões da igualdade de género. Eu acho que num momento próximo vamos falar de empoderamento feminino precisamente para podermos, também, libertar o macho português da obrigação de ter um carrão, da obrigação de ser o provedor da família. Na crise de 2008, eu andava muito por aqui. Eu vi muitos suicídios. O suicídio do macho português é o suicídio do macho que ficou sem dinheiro. Isso é fruto do machismo. 
A.R.: Como será o homem num mundo de equidade? 
P.S.: O homem ideal para a mulher empoderada é um homem que tem brio bastante para não se tornar amorfo ou passivo na relação mas que nem por isso precise de dominar a relação. É alguém capaz de partilhar decisões mínimas, como quem escolhe o vinho no jantar.


"O homem ideal para a mulher empoderada é um homem que tem brio bastante para não se tornar amorfo ou passivo na relação mas que nem por isso precise de dominar a relação."


A.R.: Quem é a mulher empoderada? 
P.S.: É a mulher que pode pensar por si mesma sem sofrer consequências por isso. Empoderamento é encarar o que se tem por dever como mais uma possibilidade; é a ampliação das possibilidades; reconhecer que se pode viver de outros modos. 
A.R.: Quem é a líder? 
P.S.: Líder é aquela que muda estados mentais. As grandes matriarcas portuguesas são líderes, líderes de sistema: morre a matriarca, morre a família toda. Isso é liderança, mas o mundo não as deixa transpor esse espaço – o espaço do lar, o espaço da educação. São elas garantem a coesão da família, que fazem as coisas funcionarem e que fazem as coisas acontecerem.