sexta-feira, 11 de outubro de 2019

VIKTOR EMIL FRANKL: O HOMEM EM BUSCA DE UM SENTIDO



No quesito literário, a minha vida foi pautada pela ausência de referências*. O meu pai treinara a memória para recordar, pelas décadas que o hábito não cumpriu, os livros que lera ainda adulto emergente mas o hábito, perdido no bulício dos dias, custar-lhe-ia a assunção de que na literatura, como na vida – em geral –, aplica-se um princípio fatalista: o que não melhora esmorece.
Esta foi uma caminhada solitária.
Margarida Rebelo Pinto e Nicholas Sparks, no começo, manutenção e despertar para literatura melhor. Eça de Queirós, José Saramago, Jane Austen, Emily Bronte, Aldous Huxley, Jack Kerouac, etecetera, depois. À data da primeira Licenciatura – Ciências da Comunicação, Universidade do Minho –, um desvio sob influência da personagem que Renée Zellweger interpreta, Bridget JonesMen Are From Mars, Women Are From Venus –, para regressar, à data de ingresso no Mestrado Integrado em Psicologia, à Literatura Clássica.
Frequência em Unidades Curriculares, Artigos Científicos e Manuais Académicos. Arrumo os livros de autoajuda, versões simplificadas de uma Ciência – a saber, a Psicologia – e passo a resistir em ceder a sugestões que pouco problematizem a vida. O Homem em Busca de Um Sentido, de Viktor E. Frankl, merece esse lugar – vulgo, o da estante – sem que se lhe tenham sido poupadas as costumeiras reticências de então.

“Nascido na Áustria em 1905, Viktor Emil Frankl formou-se em Neurologia na Universidade de Viena, onde viria a doutorar-se em Psiquiatria. Especializado no estudo da Depressão e do Suicídio, viria a ser influenciado no início por Sigmund Freud e Alfred Adler, de quem se afastaria mais tarde. Ao desenvolver um programa pioneiro junto dos estudantes vienenses, que reduziu a zero a taxa de suicídios, foi convidado a trabalhar com Wilhelm Reich.
A sua brilhante carreira viria a ser interrompida pela ascensão do Nacional Socialismo. E quando lhe ofereceram a hipótese de emigrar, decidiu permanecer na Áustria, para cuidar dos pais. Em 1942, foi deportado para um gueto, e mais tarde para o campo de concentração de Auschwitz.
No fim da guerra retomou o seu trabalho, imprimindo-lhe uma direcção completamente nova. Desenvolveu a Logoterapia, que divulgou como professor em várias universidades de Viena a Harvard. Quando morreu, aos 92 anos, tinha recebido 29 doutoramentos Honoris Causa e a sua obra estava traduzida em mais de 40 línguas.”

Em Nota Introdutória, Harold S. Kushner escreve que “este é, antes de mais, um livro sobre sobreviventes”. Três capítulos – I. EXPERIÊNCIAS NUM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO; II. LOGOTERAPIA SIMPLIFICADA; PÓS-ESCRITO 1984 – compõe um livro que, atrevo-me a escrever, é para sobreviventes. Quem são – hoje – os sobreviventes? Definir sobrevivência sob o pano de fundo que é o Campo de Concentração pode parecer um exercício desonesto: a nossa vivência é, em condições, um privilégio. N’O Homem em Busca de Um Sentido reforço o que já sabia: a subjectividade individual vence o que consideramos objectivo e, mais ainda, a subjectividade do outro. Cada um decide ao que sobreviver.
Podemos ajudar a decidir pelo que sobreviver. “O preso que perdesse a fé no futuro – o seu futuro – estava condenado. Ao perder a crença no futuro, perdia igualmente o controlo espiritual; deixava-se decair e ficava sujeito a um definhamento físico e mental. (…) Aqueles que conhecem a estreita ligação entre o estado de espírito de uma pessoa – a sua coragem e esperança, ou a falta dela – e o estado de imunidade do seu corpo perceberão que a perda súbita de esperança e de coragem pode ter um efeito mortífero.”
Reestabelecer o estado de espírito de uma pessoa é apontar uma oportunidade de sentido – um objectivo futuro, um propósito, uma meta – que valha as “terríveis condições da sua existência”. O infortúnio não valoriza o sentido – não acrescenta valor, não é um mal necessário –, e não o desvaloriza. “Quando um homem descobre que o seu destino é sofrer, terá de aceitar esse sofrimento como a sua missão. (…) A sua oportunidade única reside na forma como carrega o fardo.” Carregar o fardo, para Viktor E. Frankl, é expressão cunhada de carácter performativo: respondemos ao destino assim que agimos.
A Busca de Um Sentido pode descrever uma “angústia existencial, mas não é de forma alguma uma doença mental”. Para a angústia existencial, “o papel do logoterapeuta consiste em alargar e ampliar o campo visual do paciente, de modo a que todo o espectro de sentido potencial se torne consciente e visível para ele”. A Logoterapia coloca o paciente no centro do processo – como responsável pelo sentido da vida – e defende que a transitoriedade da existência – a morte – não destitui o sentido. A transitoriedade da existência é a responsabilidade com a realização. “Os únicos aspectos realmente transitórios da vida são as suas potencialidades; mas, logo que são efectivadas, tornam-se realidades nesse preciso instante; são salvas e entregues ao passado, no qual são resgatadas e preservadas de transitoriedade”.
Para Viktor Emil Frankl, a liberdade é limitada mas o sentido da vida é incondicional. “Não se trata de uma liberdade em relação às condições, mas de uma liberdade de tomar posição relativamente a essas condições.”

Recomendado.

*António Aleixo, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós