sexta-feira, 7 de abril de 2017

C'MARIE



Ana Rocha: Background em arte?
Constança: Estudei Canto Lírico no Conservatório Nacional, pertenci a um dos Coros Juvenis do Teatro Nacional de São Carlos, licenciei-me em Escultura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e terminei, agora, o Mestrado em Artes Plásticas na ESAD.CR.


A.R.: A Constança e a c'marie, são a mesma pessoa? Quem é a Constança? E quem é a c'marie?
C.: Sim e não. Essa é difícil!, tenho que começar pelo início. Eu sempre fui uma criança muito plural e, ainda que essa característica possa considerar-se uma qualidade, a verdade é que me trouxe alguns momentos de dúvida e questões existenciais. Sempre desenhei nas horas vagas, mas fiz todo o tipo de actividades e saltitei de um lado para o outro. Desisti da ideia de ser neurocirurgiã para seguir o curso de artes e, dessa forma, acentuou-se a questão da pluralidade. Por isso é que me revejo tanto nos heterónimos de Fernando Pessoa. O facto de ter diferentes formas de me expressar, de pertencer por vezes a registos quase díspares, no mundo da Arte, no sentido mais académico e institucional, nem sempre é fácil. Quando trabalhamos diferentes dimensões, expressões e gestos, não somos (sempre) valorizados de igual forma. Por isso é que, para mim, foi importante – e até necessário! – fazer a distinção, ao invés de optar. Enquanto a Constança ocupa o espaço dedicado à Escultura, à ideia da introspecção, o íntimo e a memória vivencial, a c'marie pertence à Ilustração, ao lado mais frenético, do quotidiano, imediato, temático. A Constança é mais ‘profunda’, mais complicada. É extremamente exigente e, às vezes, os amigos acusam-na de ver o copo meio vazio, mesmo quando ele está cheio, a transbordar. A c’marie é o lado mais livre, positivo. Mais leve, mais simples, mais acessível e comunicativa, vive num desafiar-se constante. As minhas personas nunca se encontram nem perturbam, e têm em comum o facto de serem muito trabalhadoras, de viverem muito do coração. Gosto que a c'marie seja (quase) independente, uma espécie de máscara que uso só em determinadas situações. É o meu lado despreocupado: não precisa que o trabalho esteja exposto num museu ou galeria; não espera que o espectador surja e contemple. É ela quem se atravessa no quotidiano das pessoas. Com a ilustração posso comunicar num artigo ou livro, mas através da street art comunico em paredes, na rua, no dia-a-dia… Com a c'marie volto aos tempos de infância, em que desenhava nas toalhas de papel dos restaurantes, e que a minha mãe ainda hoje guarda nos álbuns de família. Centro-me em gestos, expressões, pessoas, temas. Tento captar a sua essência, aquele segundo... Tento que passe sempre uma mensagem e que, ainda assim, haja espaço para uma interpretação ou pensamento próprio. Hoje, como freelancer, foco-me mais na c'marie. Aceito encomendas, exponho o meu trabalho e ingresso em alguns projectos.

A.R.: De que modo te moldou, o Porto, enquanto artista?
C.: No Porto encontrei vários artistas com a preocupação de desenvolver trabalho sério, de diálogo entre o artista e o público. Senti que estava em casa. Há cidades que (ainda) não estão disponíveis para receber o “novo” modelo artístico, a arte que pode pertencer ao núcleo da vida, nas ruas. No Porto, os artistas conseguem que as pessoas olhem, de facto, e se questionem e envolvam; conseguem que os procurem, partilhem e sigam. A sensibilidade do público para com a arte na rua, no Porto, é uma característica que eu adorei.

A.R.: Qual é, actualmente, o teu maior desafio?
C.: O meu maior desafio (leia-se: objectivo), actualmente, é ser bem-sucedida. Acabei recentemente o Mestrado em Artes Plásticas e chegou o fatídico momento de ingressar na vida adulta, no mercado de trabalho. Tenho de arranjar um “emprego sério”, que pague as contas e, confesso, não me imagino em horário fixo, atrás de uma secretária, a responder a briefings e/ou linguagens artísticas que não a minha. A maioria dos artistas tenta não falar desta questão, mas é importante. A arte é a minha profissão. Pretendo sentir-me realizada e feliz, mas também remunerada.


A.R.: O que podemos esperar de ti no futuro?
C.: Tenho estado a planear projectos interventivos, de cariz social e político, que abordem questões de pensamento individual e colectivo.
A.R.: A intervenção em rua – street art – e a arte, em geral, podem ser agentes de mudança social? Como te posicionas, a ti e ao teu trabalho, relativamente a esta questão?
C.: A arte tem, em parte, esse dever, de se dirigir às pessoas e de fazê-las questionarem-se, de colocar o 'dedo na ferida'. Quero que o meu trabalho se mute e avance, que passe a ter uma carga mais retórica e de chamada de atenção.

A.R.: Por onde podemos acompanhar os teus projectos?
C.: Pelo Tumblr, Instagram e Facebook.

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