segunda-feira, 5 de junho de 2017

mynameisnotSEM



Ana Rocha: mynameisnotSEM… Porquê?
mynameisnotSEM: SEM é um alter-ego do tempo do graffiti – tem cerca de 10 anos – que uso por referência ao negativo e à subtracção. Portanto: não é uma sigla. Exploro-o, também, pela questão oral. É um algarismo? É uma negação? Esse trocadilho, fazia-o enquanto artista de graffiti: ora assinava com algarismos, ora assinava com letras. E tem, também, que ver com o sentido literal da coisa – o meu nome não é mesmo SEM, é Filipe – e com referências pessoais, como o filme brasileiro O meu nome não é Johnny. São várias as referências que acabam por se aglutinar no meu alter-ego.



A.R.: O que é que fazes, especificamente?
mynameisnotSEM: Pintura, curadoria de eventos, arte urbana e workshops (em escolas de Ensino Primário, Básico e Secundário – exponho os alunos à técnica da pintura).
A.R.: Formação?
mynameisnotSEM: Sou licenciado em Design de Comunicação pela ESAP – Escola Superior Artística do Porto – e mestre em Design de Imagem pela FBAUP – Faculdade de Belas Artes do Porto –, mas o meu percurso é não-normativo e só faço design pontualmente.
A.R.: Criativo ou artista?
mynameisnotSEM: Mais criativo do que artista.
A.R.: De que forma é que isso se reflete no teu percurso académico?
mynameisnotSEM: Durante o Mestrado escolhi dissertação em vez de estágio. A minha dissertação é sobre o Desenlata.
A.R.: O que é o Desenlata?
mynameisnotSEM: O Desenlata é um festival de arte independente. É autossuficiente – sustem-se no crowdfunding – e é organizado por mim, por mais (alguns) artistas e por pessoas associadas à área. Surge a partir da minha vontade de desenvolver projectos com artistas e com a comunidade sem produzir um conhecimento muito extensivo e teórico – por associação às belas artes – pelo que tem, portanto, um carácter prático. Há, aquando a frequência no Mestrado em Design de Imagem pela FBAUP, a oportunidade de a dissertação se concretizar no próprio planeamento de um evento e, porque Matosinhos é uma cidade especial para mim, pareceu-me interessante a ideia de explorar lá o festival de arte urbana.


A.R.: Que relação entre ti e Matosinhos?
mynameisnotSEM: O mar, a indústria conserveira e o facto de eu ter crescido, enquanto artista, nas fábricas abandonadas de Matosinhos que, na sua maioria, eram fábricas de conserva. Matosinhos era uma cidade industrial, mas está a tornar-se em habitação de luxo (…).
A.R.: Como se concretiza, em termos práticos, o Desenlata?
nynameisnotSEM: No primeiro ano, Desenlata – Festival de Arte Ilegal, um mural colectivo, um workshop e uma exposição. Dois dias de evento, com um instameet. O ano passado, Desenlata – Festival de Arte Independente, uma street art tour: fizemos um circuito de colagens, concretizado, mais tarde, num mapa. Em 2017, terceira edição, estamos a organizar uma exposição muito especial em Matosinhos. Um mural colectivo – uma coisa mais ambiciosa do que na primeira edição – e visitas guiadas às fábricas de conserva em funcionamento (ainda existem duas). Sempre no primeiro fim-de-semana de Setembro, este ano a 2, 3 e 4 (Setembro de 2017).
A.R.: Porquê fazer visitas guiadas às fábricas de conservas?
mynameisnotSEM: O Desenlata, para além a arte urbana integrada no contexto da cidade de Matosinhos, quer celebrar a história da cidade. É um festival com uma dimensão activista. Por que é que as fábricas deixam de existir e começam a aparecer casas? Falamos sobre o que aconteceu porque é interessante descobrir isso e porque as pessoas que, actualmente, aqui vivem não são de Matosinhos! Um dos capítulos da minha dissertação tem que ver justamente com as fábricas abandonadas. Exploro o que são espaços mortos e devolutos e concluo que aqueles espaços não estão mortos: vivem lá pessoas – sem-abrigo, toxicodependentes – vivem lá animais, vivem lá plantas… Há pessoal que vai lá roubar cobre e metais preciosos, há pessoal que vai para lá depois da queima, para ter relações sexuais. Aqueles espaços, no fundo, estão legalmente embargados. Têm actividade. O que está morto aos olhos da lei, na prática, tem actividade.



A.R.: Como defines o que fazes profissionalmente?
mynameisnotSEM: Sou um artista plástico.
A.R.: Que leitura podemos fazer aos teus desenhos?
mynameisnotSEM: Os meus desenhos têm caracter abstrato. Eu não sei desenhar e não gosto do figurativo, então tento fazer o que me é confortável – embora esteja sempre a experimentar técnicas novas. A formação em design afecta a minha percepção de arte e molda o que eu gosto de fazer. O trabalho que desenvolvo é muito inspirado pelo design e pela música eletrónica. Actualmente, pinto formas cheias de cor, mais ou menos dinâmicas, por associação à música eletrónica. Gosto do minimal, do psicadélico e (quase) não oiço voz – não gosto de músicas com voz.
A.R.: Porquê?
mynameisnotSEM: A expressão na ausência de texto – através de imagem, som (…) – potencia um outro universo. Eu não me identifico com a voz: a música fala sem voz! E, este trabalho, tem que ver com a questão musical. A música é um prato, um bombo, um sampler, um sintetizador (…). O que eu tenho tentado fazer é desconstruir e construir – tento encontrar elementos visuais para compor o meu trabalho como se fosse música. É uma abordagem (um bocadinho) diferente e muito pessoal.
A.R.: Onde te encontramos daqui a 10 anos?
mynameisnotSEM: Não sei como me vejo daqui a 10 anos. Estamos numa fase muito crítica para fazer planos: nós, a sociedade, o país (…). Eu não gosto de fazer planos a longo prazo. Quero manter esta actividade – é o sonho, sim! –  e fazer com que isto prolifere. Gosto de pintar em anarquia, mas o compromisso profissional conforta.

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