domingo, 18 de novembro de 2018

DIOGO FARO: SENSIVELMENTE IDIOTA


Ana Rocha: Quem é o Diogo Faro?
Diogo Faro: Sou de Lisboa e cresci em Alvalade. Estudei Publicidade e Marketing, fiz Erasmus na República Checa e trabalhei em duas Agências de Publicidade – era criativo; trabalhava como copywriter e fazia activação de marca. Em 2011, quando estava a trabalhar na Bulgária, fundei o blogue – Sensivelmente Idiota – que passou, quase no imediato, a página do Facebook. A conta cresceu e surgiram oportunidades para trabalhar como speaker, em eventos e activações de marca. Mais tarde, comecei a fazer stand-up, gostei da sensação e, um dia, decidi despedir-me para me tornar comediante profissional. Foi há cinco anos.


A.R.: Ser comediante é uma profissão…
D.F.: Sim, é disso que eu vivo.  Há cinco anos aventurei-me numa transição profissional e, depois de um ano, conquistei a independência financeira. Consegui subsistir e saí de casa da minha mãe. Agora tenho dinheiro para viver com a comédia e é excelente.
A.R.: A comédia pode ser um agente de mudança social?
D.F.: Pode. O meu primeiro objectivo é sempre fazer rir, mas eu não consigo dissociar as minhas opiniões do meu trabalho. Há muitos comediantes acerca dos quais não sabes nada, ainda que te rias muito com eles: não sabes a opinião deles sobre a equidade de género, sobre o fascismo ou, até, o clube de futebol. Eu não consigo dissociar, tenho opiniões muito fortes. Não quero dizer que não as mude, mas tento sempre informar-me, ler e ver documentários e, por acumular conhecimento, quando estou a fazer humor, não consigo dissociar, não gosto de fazer humor sobre escorregar numa casca de banana.
André Couceiro: De que forma é que a tua educação e a tua infância impactaram a tua forma de pensar e de expores publicamente a tua posição?
D.F.: A minha família é muito culta e, desde pequeno, incentivavam-me a ler e levavam-me a viajar; desde muito cedo. O meu pai é altamente liberal – é um dos músicos da revolução de Abril – e a minha mãe é cantora de ópera, mas o meu pai, neste sentido revolucionário… [Ele] andava com o Zeca Afonso e com o Sérgio Godinho a contestar o regime e as faltas de liberdade. Eu acho que também faço um bocadinho isso: não tenho nenhum propósito gigante – não acho que vou mudar mentalidades – mas se, através da comédia, conseguir fazer as pessoas pensarem um bocadinho numa direcção que eu acho que é melhor para a sociedade, fixe. Não acho mesmo que vá conseguir mudar grande merda e que esteja aqui como um messias – nada disso!, não tenho o complexo de messias, não acho que tenha o dom da palavra –, mas tenho estas opiniões sobre a normalidade da homossexualidade, a normalidade da bissexualidade, da poligamia, enfim, para mim está tudo bem desde que as pessoas sejam felizes, e se eu puder usar a comédia um bocadinho para ajudar as pessoas a pensar nestas coisas, melhor.
A.C.: Já tinhas tido algum contacto com esta questão do activismo antes de usares a comédia, quando eras mais novo?
D.F.: Não, só enquanto comediante, não sou activista – não participo em greves e em manifestações – e prefiro fazer uma crónica boa sobre o assunto, com a qual as pessoas se riam e pensem.  Já participei em Conferências do #HeforShe, mas o meu trabalho é ser comediante.
A.R.: Em 2018, podemos começar a pensar no #SheforHe?
D.F.: Para mim é uma questão de defesa dos direitos das pessoas. Não é para agora – não podemos deixar já de falar sobre os direitos das mulheres e de chamar a esse movimento feminismo – mas, para mim, se este fosse um mundo fixe, falávamos sobre os direitos das pessoas. Homens, mulheres, homossexuais e bissexuais: se quiserem lamber um homem de manhã e comer uma gaja à noite, está tudo bem. As pessoas têm que viver a sua cena felizes.
A.R.: As pessoas com quem fazes humor – por exemplo, o Pedro Chagas Freitas – ficam felizes?
D.F.: Coitado. O Pedro Chagas Freitas fala sobre aquelas chachadas de merda, vende, faz muito dinheiro… Deve estar contente, a vender livros de contos da Disney para adultos, provavelmente para mulheres que estão tristes – com tanta merda que há para ler! Acho que esse não tem nada contra mim. O Gustavo não deve gostar.
A.R.: O Gustavo Santos?
D.F.: Dei-lhe baile durante muito tempo, entretanto cansei-me. Não desejo mal a essas pessoas, só acho que o trabalho delas é péssimo. Até ouvi uma entrevista do Pedro Chagas Freitas e achei-o um gajo fixe, escreve é uma merda.
A.R.: Três livros favoritos?
D.F.: A Aparição, de Virgílio Ferreira; Sapiens, de Yuval Noah Harari; Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes.
A.R.: No Maluco Beleza, Rui Unas e Frederico Pombares discutem a ideia de que os humoristas desenvolvem o humor porque carecem de boa aparência. Como te posicionas?
D.F.: Há tantos comediantes: uns são bonitos, outros são feios, uns são inteligentes e outros são burros (…).
A.R.: Quem são os bonitos?
D.F.: Eu!, de resto é um bocado irrelevante. Há muitos que me fazem rir e outros que são péssimos.
A.R.: Quais são os melhores?
D.F.: Eu sou fã de várias gerações. O Herman. Acho que foi super importante. Foi importante para que pudesse aparecer um Ricardo Araújo Pereira, para que aparecesse um Bruno Nogueira, de quem eu gosto muito (…), e para que, depois, continuassem a aparecer outros, como o Salvador Martinha, e os humoristas da minha geração, que são menos conhecidos mas excelentes, e a quem desejo maior reconhecimento: Guilherme Fonseca, Pedro Durão, Pedro Sousa e mais uma data de gente que trabalha comigo. Em Portugal, essas são as minhas referências. Herman, Ricardo e Bruno.
A.R.: Em todas as referências que te pedi, não referiste uma mulher… Há boas humoristas em Portugal?
D.F.: Há! A Maria Rueff – ainda que não a coloque naquele top três –, a Bumba na Fofinha, a Rita Camarneiro… Há mulheres no humor, mas efectivamente não são tão boas.
A.R.: Porquê?
D.F.: Culturalmente, é difícil. Vivemos num país machista.
A.C.: Achas que isso pode ter influência quando uma mulher pensa em desenvolver carreira como humorista?
D.G.: Sim, ainda por cima, está muito enraizada a ideia de que se uma mulher vai fazer piadas, essas piadas são sobre pilas.

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