sexta-feira, 25 de novembro de 2016

MARIA BÔLA: A PRIMEIRA BOLARIA DO PORTO



Ana Rocha: Maria Bôla: casa de chás e primeira bolaria do Porto. Bôla, suponho, por causa da oferta. Maria… Quem é a Maria?
Maria Martins: A Maria sou eu! O meu nome é Maria, tenho 32 anos e sou de Viseu. Fui para Lisboa aos 18 anos estudar – sou Licenciada em Ensino de Física e Química – e estive cinco anos no activo (quatro em Lisboa, um em Viseu). Três anos volvidos fizeram-me perceber que precisava de fazer alguma coisa. Sentia-me muito só no Porto. Nasceu o Maria Bôla. Hoje continuo à espera de colocação. É essa a minha função porque, acima de tudo, sou professora.

 
A.R.: O ensino não te satisfazia?
M.M.: Eu sempre quis ser professora, desde pequenina. Os meus pais são professores e eu sempre vivi deslumbrada com o ensino. Sempre acreditei que tinha perfil para. Quando comecei a estagiar e a fazer a tese, no entanto, percebi que aquilo que eu vivia e aquilo que eu escrevia eram, na verdade, duas realidades muito diferentes. E comecei a sentir que não era feliz, porque as escolas não tinham condições para me permitir melhorar a minha prática de ensino e a aprendizagem dos alunos. Isto cria um bolo de insatisfação.
A.R.: As competências avaliadas na vida académica não são as competências avaliadas na vida profissional?
M.M.: Não, de todo. A realidade é muito diferente para quem estuda e para quem trabalha. Mas às vezes, admito, tenho saudades. Saudades porque aqui, o que faço?, vejo revistas de culinária, cozinho, sirvo às mesas… E, quando olho para trás, penso que eu não era só isto. Eu estudei tanto! Aqui é só juntar a farinha e os ovos.
A.R.: Qualquer pessoa poderia abrir o Maria Bôla?
M.M.: Acho que não. Para o abrir tinha que desenvolver o gosto, tinha que estar aqui – presente – e tinha que se dedicar a 100%. Eu, durante muito tempo, não tive vida social. Deixei tudo de parte pelo Maria Bôla.



A.R.: Então talvez seja mais do que juntar a farinha e os ovos…
M.M.: É verdade, é muito mais. Os primeiros meses, aqui dentro, foram intensivos. Foi uma aventura até abrir! E, no dia em que abri, a inexperiência era tanta… A aprendizagem tem sido grande e significativa. Cresci mais aqui, durante um ano, do que em cinco anos como professora.
A.R.: Que aprendizagens podes transmitir a um futuro empreendedor?
M.M.: Eu estava desempregada, não tive que me despedir – não tive que trocar o certo pelo incerto – e, para quem está desempregado, parece-me que é mais fácil agarrar a oportunidade. Mas acredito que o essencial é querer muito. Querer e não ter medo. Só quando acreditamos no projecto é que o conseguimos fazer resultar. E é importante, também, trabalhar: porque ninguém o vai fazer por nós. Dedicar muito do nosso tempo – deixar de ter tempo para os outros e para nós – em prol de algo maior. Ter um projecto destes implica, mesmo, deixar de estar com os nossos. E isso, para mim, foi o mais difícil. Mas compensa. Isto é meu e tenho orgulho. Foi muito o tempo aqui gasto…
A.R.: Ama-se mais o que se conquista com trabalho?
M.M.: Sim, com trabalho e com gosto. Tudo o que aqui está foi pensado ao pormenor. Por mim e pelo Ricardo, o meu noivo. O Maria Bôla é um investimento a dois.




A.R.: Ele também trabalha aqui?
M.M.: Ele é apenas investidor – trabalha como dentista – e eu trabalho aqui. Estamos (quase) sempre de acordo. Quase. Às vezes discordamos; é normal. Mas quando passávamos tão pouco tempo juntos, ter que discutir assuntos de negócios estragava a relação…
A.R.: Estragava, não estraga? Quer isso dizer que o aprenderam a gerir?
M.M.: Sim, assim como eu aprendi a delegar tarefas para ter a possibilidade de sair daqui. Percebi que tenho que começar dividir a responsabilidade com aqueles em quem confio. Não é fácil – eu sempre ouvi dizer que a casa é minha e eu tenho que estar –, mas necessário: porque se eu não estou bem, o Maria Bôla também não vai estar.
A.R.: O Maria Bôla abriu com Brunch, certo?
M.M.: Sim!
A.R.: Sentes que essa foi uma decisão de peso, por causa da responsabilidade que lhe está associada?
M.M.: Sim, foi uma decisão de peso. Uma decisão de peso que, na altura, não sabíamos que estávamos a tomar – tal era a inexperiência. Em Lisboa havia uma oferta gigantesca e eu achava o conceito espectacular. Enquanto lá vivia, era fã do brunch: corria todos! E dizia que, se alguma vez abrisse uma casa de chás, haveria de ser assim. Brincava com a minha mãe: “não percas a receita da queijadinha, porque um dia…”. Por isso, quando surgiu a ideia, tinha que haver brunch. E o brunch tinha que ser buffet! Só mais tarde, quando começamos a aparecer em aplicações, blogues e revistas – como o 2 por 1 da Time Out – é que tomamos consciência do peso da nossa decisão. Eu não sou chefe de cozinha, eu só quero dar às pessoas o que sempre tive: uma cozinha familiar. É essa a mensagem que eu quero passar. E o 2 por 1 permitiu-me perceber o que não quero na minha casa. Quero que os clientes venham e tenham o seu tempo. Não quero que corram por uma fatia de bolo – porque correr já o fazem durante a semana.





A.R.: Então e se soubesses o que sabes hoje…Tinha-lo feito na mesma? 
M.M.: Sim! Tenho sempre casa cheia ao Domingo, as pessoas precisam disto. Faz todo o sentido. É uma responsabilidade muito grande, mas vale a pena.
A.R.: A experiência está a mudar a tua postura quando na qualidade de cliente?
M.M.: Completamente! Hoje, se a demora é maior no atendimento, eu compreendo. Não há problema. Mudou muito a minha atitude.
A.R.: Que razões para convencer os leitores a experimentarem o brunch do Maria Bôla?
M.M.: Os produtos da Maria Bôla são de confecção caseira – são, portanto, muito saborosos – e o ambiente é intimista.

A carta:

×          Iogurte com granôla

×          Variedade de pão

×          Croissants

×          Fruta

×          Requeijão

×          Queijo Fresco

×          Compota

×          Manteiga 

×          Tábua de Bôlas

×          Sobremesas

×          Bebidas (chá, sumo, limonada, café solúvel e expresso)

×          Sopa

×          Prato quente
 
À descrição, com excepção do café expresso.





A.R.: Por que preço podemos degustar o brunch?
M.M.: Por 12,50€.
A.R.: E qual é o horário?
M.M.: Sábados e Domingos, do 12h às 16h. A reserva não é obrigatória, mas sugerida – porque há muita procura.
A.R.: Há previsão de abrir, pelo menos, mais um Maria Bôla?
M.M.: Uma ideia ainda a fermentar.




Rua de Cedofeita, 516
Porto – 22 319 9294



Fotografia: Eliesley Soares

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