sábado, 17 de dezembro de 2016

MARIANA A MISERÁVEL



“Há pessoas mais miseráveis que eu, mas eu não digo isso a ninguém. Na verdade, somos todos miseráveis.”

Ana Rocha: Mariana a miserável é ilustradora. Esclarece-nos: o que é ilustração?
Mariana a miserável: A Ilustração é (só) imagem: de textos livres, de jornais, de revistas – esse é, pelo menos, o conceito mais tradicional de ilustração. Hoje em dia, no entanto, não há tanto mercado editorial e um ilustrador pode muitas outras coisas. Eu, em particular, aproximo-me da ilustração de autor, que é uma expressão da ilustração associada ao meio artístico. Ilustro palavras e conceitos meus e exponho-os como arte. Há quem defenda que a ilustração em galeria não é ilustração – é só arte. Eu não gosto de teorizar. Gosto de experimentar coisas novas dentro daquilo que faço. Ilustrei, por exemplo, um livro de cartas de amor para uma editora portuguesa e, no mês seguinte, fiz a transposição de uma dessas ilustrações do livro cartas de amor para um mural em São Miguel, nos Açores. Aqui se percebe bem os vários territórios que a ilustração pode ocupar.


  A.R.: Podemos, então, dizer que as competências avaliadas no mundo académico não são as competências que se avaliam no mundo profissional?
M.M.: Não, de todo. É importante, muito importante que a faças, mas não chega: é preciso algo mais. Eu senti muito a fase de acabar o curso e de não saber para onde ir, como começar, o que fazer. Não fazia a mínima ideia e, ainda hoje, vejo imensa gente nesta situação, que é pavorosa. É medo. Medo puro. Na altura, decidi não pensar, ir viver para Porto, fazer aquilo de que gosto e ser feliz. Resultou. Comecei por trabalhar 8h por dia, em casa, e ainda hoje a minha vida ainda é assim. Sou eu que faço o meu horário. Tem as suas vantagens, mas é importante que se aprenda a gerir o tempo – o pessoal e o de trabalho – porque a ilustração é uma profissão solitária. Estás constantemente sozinha a trabalhar, e é solitário porque se não tiveres controlo sobre o que estás a fazer consegues ficar em casa, por exemplo, uma semana inteira sem falar com ninguém. Já me aconteceu. Estás completamente sozinha. Estás tão dentro do teu trabalho – e precisas do tempo – que ficas completamente isolada. Eu comecei a limitar-me porque houve alturas em que aceitava o trabalho todo e não dormia. 
A.R.: Sentes então que, durante o processo criativo, precisas de te isolar?
M.M.: Sim. Já senti isso e já senti o contrário. Antes das exposições eu passo por um processo que apelidei de clausura. A clausura consiste em, antecipadamente, passar pelo supermercado para comprar mantimentos e ficar uma semana em casa, sozinha. Para mim já é uma coisa natural. Aviso os meus amigos e a minha família de que vou entrar em clausura, “é agora!”, e eles já sabem que está tudo bem. Faz parte do meu processo criativo. (In)felizmente, não tenho tempo para estar, tranquilamente, em casa a ouvir música clássica e a desenhar apenas quando me apetece porque tenho muito trabalho comercial. E exposições para fazer. Mas também sinto o contrário. Sinto que já estou fechada em casa há mil anos, sinto que já não vejo ninguém há muito tempo e que preciso de ir trabalhar, por exemplo, para um café. Já tive imensas ideias em cafés. Esse é um aspecto muito bom da minha profissão: tenho a liberdade de gerir o meu tempo e de decidir para onde é que vou. A liberdade para gerir o meu horário faz parte do processo – eu não tenho um processo fixo – e a intuição é, neste aspecto, muito importante: organizo-me de acordo com aquilo que sinto.


A.R.: Podemos considerar-te, portanto, uma artista multidisciplinar.
M.M.: Sim. Se procurares pelos meus trabalhos, desde os mais antigos, consegues aperceber-te períodos diferentes. Tenho um período em que só pinto com tinta-da-china; tenho um período cinzento em que só trabalho com grafite; tenho um período em que começo por inserir cor – mas só o pormenor; e, entretanto, entretanto descubro que quero cor e começo a trabalhar com cor.
A.R.: Consideras-te uma contadora de estórias?
M.M.: Sim!, aliás, eu acho que um dos papéis dos ilustradores é precisamente o de contar estórias: suas ou de outras pessoas. Quando um escritor me pede para ilustrar um livro é a minha visão, a minha interpretação do texto, que eu vou ilustrar. E essa é a finalidade da ilustração: a de passar uma mensagem muito clara através daquilo que estou a desenhar. Aqui reside a diferença entre a ilustração e a arte. O ilustrador preocupa-se com uma finalidade muito específica durante o processo de produção.
A.R.: Os teus trabalhos partilham todos o mesmo conceito?
M.M.: O traço é meu, não sei fazer outro. Quando me procuram, para algum trabalho, procuram-me pelo que faço enquanto miserável. Vão de encontro às minhas limitações. E eu também me adapto às limitações que requer o trabalho de cada cliente: adapto a minha linguagem à técnica que acho adequada para o processo de produção do objecto final.


A.R.: Fazes intervenção em rua?
M.M.: Eu só fiz quatro vezes intervenção em rua. A primeira foi nos Açores, a segunda foi no Porto (com o Júlio Dobeth, André da Loba, Mariana Rio e Nicolau), a terceira foi em Viseu e a quarta, este ano, no Algarve.
A.R.: De que modo é que a formação dos teus pais te influenciou?
M.M.: Os meus pais são muito culturais. Eu tinha 14 anos quando fui ver a minha primeira exposição (à qual foi o meu pai que me levou). Lembro-me de estar na exposição e de pensar “uau, nem sabia que isto existia e que podia ser um emprego!”. Mas, nessa idade, não se pensava muito. Eu sabia que queria ir para artes, e isso bastava-me.
A.R.: Desde pequenina?
M.M.: Quando era pequenina queria ser florista. Queria ser uma pessoa normal. Não queria dar muito nas vistas... Mas a coisa não se orientou por aí
A.R.: Eu li uma entrevista em que falavas sobre a exposição Lonely Hearts. Li, também, algo a respeito do Tinder… Hum, creio ter-te lido dizer que chegaste a conclusões dolorosas.
M.M.: As pessoas são muito sozinhas. É muito difícil encontrar alguém. E é muito difícil encontrar a pessoa certa no momento certo. Às vezes encontras a pessoa certa mas não está no momento certo para ti. Torna-se cada vez mais difícil encontrar alguém e quanto mais avanças na idade… Pior. Aos 30 anos – e eu sempre lidei bem com a idade, sou uma velhota, vejo telenovelas! – os teus amigos começam a casar e a ter filhos, os teus ex-namorados também, e é só…  Estranho. Tu começas a pensar: “Isso quer dizer que…”. E, de repente, começas a estar rodeado de pessoas que estão resolvidas… E tu não estás. Onde raio vais conhecer alguém?! Inscreves-te no Tinder. O Tinder é só… Eu acredito que possam acontecer milagres!, mas aquilo é horror. Então, como dizia, eu inscrevi-me no Tinder por causa da exposição e, por causa da exposição também, participei em Speed Dating.


A.R.: Explicavas às pessoas qual era o teu objectivo?
M.M.: Sim, foi engraçado. O Speed Dating foi ainda mais engraçado, porque eu senti que os homens desabafaram mesmo comigo, e que deixaram de ter segundas intenções e eram pessoas normais. Eram homens e mulheres normais. No Tinder, por outro lado, às vezes não me era dada a possibilidade: enviavam-me logo fotos que… Essa parte foi engraçada. E foi boa para a minha exposição, porque me deu material para trabalhar. O Speed Dating foi bonito. As pessoas perceberam mesmo o que eu estava lá a fazer. Desabafaram comigo. Vi homens com trinta e muitos anos quase a chorar. As pessoas estão todas muito sozinhas, mas não se fala nisso: está sempre tudo bem – somos todos independentes e profissionalmente realizados. Só que não… Estamos todos muito mal. Fazemos parte de uma sociedade em que não se valoriza o amor. O amor é um conceito… Mais vale pintar, que o amor dá trabalho. O amor dá trabalho!
A.R.: A Mariana Santos e a Mariana a miserável são, portanto, a mesma pessoa?
M.M.: No início eu acreditava que eram pessoas diferentes mas, com o tempo, apercebi-me de que a miserável era, de facto, eu. Grande parte do meu trabalho – exposições e fanzines – são sobre mim, sobre a minha vida. Uma dessas fanzines é, aliás, sobre o pior ano da minha vida. A Mariana Santos e a Mariana a miserável são, as duas, a mesma pessoa. Talvez fosse mais interessante dizer que era outra pessoa e que está tudo bem… Mas não.


A.R.: Se a criança que eras com seis anos olhasse, agora, para a mulher em que te tornaste, como pensas que se sentiria?
M.M.: Eu nasci numa época em que estava tudo bem. O conceito de crise não existia. A crise começou quando eu entrei para o mercado de trabalho. Foi um timming óptimo: logo agora!, que eu precisava de arranjar um trabalho. Com seis anos pensava, com certeza, que aos 30 já teria filhos, casa, carro e marido. Não aconteceu.
A.R.: Aconteceu a miserável. Se, há sete anos, contasses às pessoas sobre o lugar em que hoje ias estar… Acreditavam?
M.M.: O meu pai - que é apreciador de arte - torceu o nariz! Ele gosta de outro tipo de trabalhos e não entendia o meu. Então, nem eu acreditava. Aliás, quando dei por terminada a minha formação no ensino superior, enviei um pequeno portefólio para várias editoras e… Óbvio que não: óbvio que não consegui nada. Consegues perceber o meu pretensiosismo na altura? Hoje o meu trabalho prima por excluir essa inocência. Consigo situar-me muito melhor. Reconheço isso nas pessoas mais novas, mas acho que não há mal nenhum porque é, na verdade, uma defesa e quando todos te dizem que o teu trabalho é uma merda... Tu precisas dessa ousadia para continuar.
A.R.: O que é que te distingue de outros ilustradores? O que é que tu tens que os outros não têm?
M.M.: Eu acho que tem que ver com circunstâncias. Primeiro, houve um pai que me dava dinheiro – mesmo que não acreditasse muito nos meus projectos. Depois, eu não tenho muito jeito para mais coisas. O que é que ia fazer? Ainda entreguei um curriculum vitae numa florista, mas não resultou. Trabalhei imenso. Há pessoas que pensam que sou mais velha do que sou, na realidade, porque tenho muito trabalho. Mas não, eu só trabalho muito: é só isso.
A.R.: Que novidade nos podes contar?
M.M.: Para o ano vou fundar um clube. O Clube dos Miseráveis.
A.R.: Até lá, por onde é que as pessoas te podem seguir?

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