domingo, 11 de agosto de 2019

ANA ISABEL ARROJA: RÁDIO COMERCIAL


Ana Rocha: Quem é a Ana Isabel Arroja?
Ana Isabel Arroja: A pergunta mais difícil. Sou eu. A Arrojinha para os amigos. Sempre fui: Ana Arroja, Arrojinha ou Arroja. É sempre difícil falar sobre mim, sabes? É sempre a dificuldade que eu tenho. Podem fazer-me as perguntas todas: normalmente sou uma metralhadora falante; falo sobre tudo, qualquer assunto. Agora, o falar sobre mim torna-se muito difícil porque eu sou tão eu – é tão normal ser eu, não faço força nenhuma para ser outra pessoa, não tenho filtros, não tenho… Esconderijos – não tenho nada!, então, é muito estranho. Se eu for por aquilo que eu acho que é aquilo que as pessoas vêem, sou uma pessoa muito sincera, sou muito frontal, sou muito sensível, sou… Acima de tudo, muito comunicativa. Sempre fui muito comunicativa, sempre. Acho que é aquilo que eu mais sou. Comunicativa. A minha filha está sempre a dizer-me “mãe, tu falas tanto, deixa as pessoas falar!” Mas, normalmente, quem me entrevista diz que isso é bom porque não são precisas, quase, perguntas, eu acabo por responder a quase tudo. Sou mulher, sou mãe, sou trabalhadora, sou dona de animais – sou mãe de cães e gosto muito. Tenho muita energia, gostava que o dia tivesse 48h para fazer tudo aquilo que eu quero fazer e, mesmo assim, faço muita coisa – mas acho que nunca me chega.
A.R.: O que é que gostavas de fazer? 
A.I.A.: Gostava de aproveitar mais os meus filhos, gostava de aproveitar mais o pouco tempo livre que tenho com eles porque eu tenho muita dificuldade em dizer que não – ao que quer que seja, muita dificuldade. Com eles aprendi que tenho que dizer que não – porque tem que ser, temos que os educar – e, com os meus cães, também aprendi isso. As pessoas ficam muito ofendidas por eu os comparar, muitas vezes, mas eu fundo-os quase n’um só. Obviamente, uns são animais e outros são humanos.
“As crianças são mais complexas mas os animais são crianças autênticas.”

A.R.: As crianças são mais complexas.
A.I.A.: As crianças são mais complexas mas os animais são crianças autênticas – são filhos autênticos. Eu aprendi a dizer que não a ambos, às crianças e também aos animais, e, como tenho muita dificuldade em dizer que não, acabo por fazer muita coisa em curtos espaços de tempo. Esse é o meu maior problema. Chego atrasada a todo o lado e não consigo ser pontual.
A.R.: De verdade?
A.I.A.: Não consigo. Hoje também cheguei atrasada à tua entrevista. Porquê? Porque, como eu quero fazer tudo e tenho dificuldade em dizer que não, acabo por encavalitar as coisas umas nas outras e acho sempre que o dia tem mais tempo e, afinal, só tem 24h. Eu acho que devia ter mais tempo para que eu pudesse aproveitar tudo – principalmente o tempo livre com a família e com os filhos. Acho que é disso que eu sinto mais falta. Eu preciso desse equilíbrio para me sentir bem com tudo o resto, para fazer tudo aquilo que eu faço: as gravações, as noites como DJ, o trabalho aqui na rádio, obviamente, arrumar a casa, limpar a casa, estar com os amigos, estar com a família, viajar – de vez em quando, gosto de passar fins-de-semana fora, embora raramente os tenha livres –, portanto, tudo isso, se eu quisesse fazer bem, e aproveitar tudo bem, tinha que ter muito mais tempo.
A.R.: O que é que fazes menos bem, na tua percepção?
A.I.A.: [Risos] Eu acho que faço tudo um bocadinho bem mas, depois, acho que poderia dar mais de mim às coisas que faço. Se calhar, poderia ser um bocadinho melhor na minha profissão – se me aplicasse um bocadinho mais, se tivesse mais tempo,…

“Eu quero tanto viver a vida, quero tanto abraçar o mundo, eu tenho tanta sede viver, eu tenho tanta sede de fazer coisas, que eu estou sempre a inventar coisas para fazer.”

A.R.: O que melhorarias, na tua profissão?
A.I.A.: Eu acho que posso ser sempre melhor. É esse o meu problema. Eu quero tanto viver a vida, quero tanto abraçar o mundo, eu tenho tanta sede viver, eu tenho tanta sede de fazer coisas, que eu estou sempre a inventar coisas para fazer. Eu lancei dois livros, eu tenho o blogue, tenho o podcast que me tira também algum temp… Por exemplo, o podcast! Fazer o podcast é sentar-me. É pesquisar músicas, pesquisar o tema e editar – sou eu que edito, sou eu que monto, sou eu que lanço… Eu preciso de me sentar para fazer isso como deve ser. Há um mês e meio ou dois meses que eu não consigo fazer uma edição do podcast. Porquê? Tenho todas as outras coisas, à minha volta, para fazer. Faço-as, cumpro, mas acho sempre que podia fazer um bocadinho melhor. É essa sensação, de que o dia não chegou, de que parece ter ficado incompleto e de que, se fosse um bocadinho maior, eu conseguia fazer tudo um bocadinho melhor… É uma sensação minha e, quem está de fora, diz, se calhar, que está tudo bem. “Como é que consegues organizar tudo?”, “Como é que consegues ter a tua vida e os miúdos e a casa e o trabalho e estar sempre em viagens, festivais e concertos?” É uma gestão que eu faço.
A.R.: Sentes-te cansada? Eu não to oiço dizer.
A.I.A.: Sinto-me muito cansada. Eu tiro sempre um período maior de férias, por ano – duas ou três semanas em Agosto, sempre! –, que é uma altura de férias que é um bocadinho misturada com trabalho, mas são férias, e nos primeiros dias eu fico sempre doente. Sempre. Nos primeiros anos eu achava isso muito estranho. Falei com um dos meus médicos – com o meu médico de família – e ele disse-me que é normal. O meu organismo está tão habituado a estar constantemente em pressão que, quando pára, é quando tem tempo para pensar, é quando tem tempo para ficar doente e é quando reage. O meu organismo está fraco. Eu não descanso, eu durmo muito pouco, eu adormeço tarde porque não consigo deitar-me cedo…

“Se uma pessoa se deixar abater pelo cansaço, não faz nada. Eu combato muito isso porque eu acho que viver a vida não é bem isso. Sabe bem, de vez em quando, mas não é.”

A.R.: Define “tarde”.
A.I.A.: Depende. Ontem deitei-me relativamente cedo – era meia-noite e pouco – mas, normalmente, três, quatro da manhã. Eu raramente trabalho de manhã e essa é uma das vantagens do meu trabalho, a não ser que me marquem uma gravação – que eu tento sempre arrastar para mais tarde. Eu trabalho sempre de tarde e de noite. É um ritmo de muitos anos e o meu corpo está habituado, agora, sim, sinto-me cansada. E sempre que páro um bocadinho ou relaxo um bocadinho, fico doente. Logo, à primeira. Fico logo rouca, fico logo aflita da voz, toda entupida, mas… É uma coisa que eu faço com tanto gosto que eu até evito pensar no cansaço. Se uma pessoa se deixar abater pelo cansaço, não faz nada. Eu combato muito isso porque eu acho que viver a vida não é bem isso. Sabe bem, de vez em quando, mas não é. E, como te estava a dizer, como eu tenho tanta vontade de fazer coisas, não consigo dizer que não, não consigo chegar a horas a lado nenhum, tento fazer tudo, quero sempre que os dias sejam maiores, acho sempre que devia dar mais atenção às pessoas que estão à minha volta, acho sempre que podia fazer um bocadinho melhor o meu trabalho…  É um defeito meu, talvez, não sei se é uma qualidade, eu acho que é mais um defeito.
A.R.: Porquê um defeito?
A.I.A.: Eu acabo por sofrer um bocadinho com isso e acabo por ficar com a sensação de que as pessoas que estão à minha volta sofrem um bocadinho também. Os meus filhos, porque gostavam de me ter mais tempo. O meu marido, se calhar, também gostava de estar um bocadinho mais comigo. O resto da minha família, os meus amigos… Os amigos acabam por ser aqueles que te cobram mais: “Nunca mais fomos jantar”, “Nunca mais marcamos uma jantarada”, Nunca tens tempo”. Quer queiras, quer não, os filhos estão lá, em casa, e nós vamos, todos os dias, à partida, dormir para casa e os filhos e o marido estão lá. Os amigos não e acabam por cobrar muito. É muito aí que eu vejo, de facto, que às vezes gostava de ter mais tempo para os meus, para marcar uma jantarada com os amigos em casa. Hoje vou jantar com amigos e já não estou com eles há imenso tempo. Eles só me dizem “não vais desmarcar, tu hoje tens que ir!”. Sim. Eu hoje tenho que ir. Hoje vou mesmo, sem dúvida nenhuma. É o achar que podia fazer mais. É um defeito porque nunca estou satisfeita. Podia estar muito mais descansada e pensar, “fiz menos coisas mas fiz com tempo, fiz tudo bem, cheguei a horas, tudo tranquilo” –, mas a minha cabeça não consegue pensar assim. A minha cabeça está sempre a pensar: “O que é que eu podia fazer mais? Tenho ali um espacinho de tempo, como é que o posso aproveitar? Posso ir fazer uma massagem, posso ir um bocadinho ao ginásio, posso…” Acabo por nunca estar descansada e o meu cansaço também é muito pelo que a minha cabeça está sempre a processar. Para teres uma ideia, eu já tinha lançado um livro há seis anos – o primeiro das Pérolas Mini-Arrojadas –, agora lancei outro e já estou a pensar no próximo, para lançar no final do ano ou no início do outro. Acabei de lançar um livro. O meu pensamento, assim que fechei tudo com a editora e que o livro foi paras lojas foi, “Ok: tenho mais três ou quatro ideias, agora já posso pôr em prática.” Eu nunca estou sossegada. Eu tenho bichos carpinteiros –, os meus pais sempre me disseram isso, desde que era pequenina, e tenho!, eu não consigo estar sossegada. É muito difícil para mim parar. Quando me obrigo a parar – porque são férias – fico doente. É o meu corpo a dizer, “não páres Arroja, parar é morrer”. Estou constantemente em andamento. As pessoas dizem-me “tu tens muito andamento”, e eu de facto tenho. Risos. Por exemplo, numa semana em que eu já estava a planear fazer outra coisa surgiu o convite para participar n’A Tua Cara Não Me É Estranha. Achas que eu disse que não? Claro que não! Ia ficar sem um fim-de-semana, ia ficar com quatro dias de ensaios… Caguei! Eu fui, e levei a família inteira atrás. Eu tinha que fazer aquilo, não dá para dizer que não. A minha vida é um corropio. É muito difícil parar e é muito difícil dizer que não.

“Eu sou feliz a falar com pessoas.”

A.R.: Calada: consegues estar calada?
A.I.A.: É muito difícil. A minha filha está sempre a dizer-me isso: “tu não consegues…”,– mas ela é exactamente como eu, são os dois exactamente como eu. O Gil é que é mais caladinho e acaba por ser ali uma balança em casa, o nosso equilíbrio. Tenho muita dificuldade em estar calada e por isso é que eu acho que estou na profissão certa, sem falsas modéstias. Não sou nada de falsas modéstias, sei muito bem aquilo que faço, sei muito bem aquilo que sou e poderia fazer outra coisa qualquer para alimentar os meus filhos, obviamente – agora, se tivesse que fazer qualquer outra coisa, eu faria –, mas não seria tão feliz como a fazer isto. Eu sou feliz a falar com pessoas. Eu adoro o contacto com os ouvintes, eu adoro entrevistar pessoas, adoro conhecer artistas, adoro… Eu disse primeiro pessoas porque não é só a questão dos artistas e dos famosos – é giro, é óbvio que é giro conheceres as tuas bandas favoritas e os artistas, falares com eles –, mas eu gosto, genuinamente, de falar com pessoas. Eu sou aquela pessoa que está nos festivais e a quem não incomoda nada – antes pelo contrário! – que as pessoas venham falar comigo e que me peçam uma fotografia, que peçam para falar um bocadinho. Eu acho que tens que dar atenção às pessoas que estão à tua volta. E, às vezes, não as conheces mas passas a conhecer. Eu fiz grandes amigos assim. Eu tenho quatro ou cinco amigos, grandes, daqueles do peito, que frequentam a minha casa, que começaram por ser meus seguidores e meus ouvintes. Mas houve ali um clique – eu não te sei explicar o que é – e a pessoa desperta ali qualquer coisa. Obviamente, não é do pé para a mão, não convido para minha casa qualquer pessoa, mas acabam por se tornar amigos de tal maneira que se tornam amigos da família. Portanto, este lado comunicador já me ajudou em muitas coisas, ajuda-me muito na minha vida. Sou incapaz de estar calada, sou incapaz de não comunicar. Eu se vejo uma pessoa sozinha num sítio qualquer, meto conversa. Eu sinto que a pessoa precisa de um “está tudo bem, precisa de alguma coisa?”.
A.R.: Já te aconteceu?
A.I.A.: Já aconteceu comigo e eu sei que é importante. Uma das minhas melhores amigas – Maggie, é polaca mas mora em Londres há muitos anos – e eu conhecemo-nos no concerto dos Thirty Seconds to Mars. Em 2010 eu fui a um concerto à O2 Arena – fui desafiada por um casal amigo, então, fui com o Gil, fomos os quatro – e eu tinha direito ao Meet & Greet com a banda. Só eu. Eu fui sozinha. Eu não os conhecia ainda – foi a primeira vez, cara-a-cara. Lá estava eu, num país que não era o meu, não havia nenhum português – era a única portuguesa –sozinha, na fila. A única pessoa que eu conhecia era o Tour Manager deles, que é um português – Ricardo Ribeiro – e foi ele que me levou para o Meet & Greet. O Ricardo Ribeiro aparecia perto de mim, de vez em quando, mas não podia estar sempre comigo. A Maggie topou-me, ao longe, viu que eu estava sozinha e veio falar comigo. Ofereceu-me uns autocolantes dos Thirty Seconds to Mars. Eu fiquei a olhar para ela, e ela disse-me “queres?”, “quero!”. Em Inglês. Sempre em inglês. Ela deu-me aquilo, eu agradeci, ela foi ter com o grupinho dela e, passado um bocado, veio outra vez ter comigo. Veio perguntar-me de onde era, se estava sozinha, eu disse que sim e não nos largamos mais até hoje. Ela esteve comigo as quatro horas e tal do Meet &Greet – apanhamos uma seca valente à espera deles! –, não me largou. Falamos imenso, trocamos números de telefone, entretanto, eu já voltei a Londres várias vezes – estive em casa dela –, e ela já conheceu a minha família. Estamos constantemente em contacto. É uma das minhas melhores amigas, sem a qual eu não vivo. É como se fosse uma irmã que eu nunca tive. Eu tenho um irmão, nunca tive irmãs mulheres – se bem que eu vestia o meu irmão de menina, quando era pequenino, para ter uma irmã, mas não consegui bem. [Risos.] Então, isto para perceberes que eu senti na pele o que é estar sozinha e, às vezes, uma pessoa comunicativa meter conversa contigo não é mau de todo – é bom, sentes um carinho, estavas a precisar. Ela fez isso comigo e eu costumo fazer isso, normalmente, com as pessoas. Eu acho que isso é importante e a questão da comunicação é muito importante. Às vezes não damos importância às pessoas que estão à nossa volta e não percebemos alguns problemas que só ao falares com as pessoas entendes – depressões, ideações suicidas. Eu tenho um amigo que se suicidou, infelizmente, há poucos anos. Eu estava grávida do Salvador. E eu gostava de ter percebido antes que aquela pessoa estava com problemas. Claro que não conseguimos chegar a todo o lado mas, às vezes, é só um simples, “está tudo bem?”. Esta nossa veia comunicativa – e se tu também és assim percebes isso – é muito importante. Às vezes pode ser cansativo, para quem lida connosco todos os dias – Chega! Cala-te um segundo! – mas, depois, eu acho que noutras alturas da nossa vida é, de facto, importante. Eu sou, como já percebeste, muito comunicativa. Acho que estou na profissão certa. Se faço melhor, se faço pior… Isso também depende muito da percepção das pessoas. Pode haver quem goste muito e quem não goste. Há quem simpatize comigo e quem não ache graça à minha maneira de ser, mas é aquilo que eu sou. Ponto. E vou voltar ao início da conversa: sem filtros, sem subterfúgios – que é uma palavra que eu detesto –, sem coisas escondidas. É aquilo que é.

“Só quando eu experimentei Rádio é que percebi: “isto é a minha vida!”

A.R.: O que querias ser quando eras pequena?
A.I.A.: Queria ser piloto da força área, porque o meu pai era. Agora está na reserva – na reforma – mas, quem é militar, é militar a vida toda. Estão ali e, se algum dia houver uma guerra e for preciso, mesmo aqueles que estão na reserva têm que ir combater. O meu pai, uma vez, explicou-me isso e eu achei muito engraçado. Eu vivi a minha vida toda com os aviões, com a força área, com os aviões militares… Adorava aquilo. Na altura, há trinta e tal anos, não havia mulheres – agora já há muitas mulheres militares e até algumas pilotos –, eu queria ser a primeira, queria ser pioneira. Adorava os fatos de voo, adorava aquilo tudo, achava espetacular. Quando, na Escola Secundária, eu comecei a perceber que precisava de Matemática e de estudar os calhamaços que o meu pai estudava de cada vez que tinha que fazer simuladores de voo, comecei a ficar assustada – sem me deixar demover. Só quando eu experimentei Rádio é que percebi: “isto é a minha vida!”. Sempre fui muito comunicativa mas nunca tinha pensado na minha voz – nada! – porque eu queria ser piloto. Hoje em dia tenho medo mas, na altura, adorava e andava muito com o meu pai. Aos 16 anos, uma rádio local – Popular FM – falou com a minha Directora de Turma. Tinham um projecto no Programa e gostavam que os alunos da Escola Secundária fizessem umas rúbricas. Era um projecto novo, diferente, e que incluía alunos. Eu fui uma das pessoas a querer experimentar. Já na altura não dizia que não. Experimentei. Claro que nunca mais parei de fazer, os meus colegas foram desistindo – foram se cansando daquilo – e fiquei eu e a minha melhor amiga. Ela, hoje em dia, é militar – Marinha – mas fizemos rádio ainda um ano ou dois juntas. Foi acontecendo. Depois convidaram-me para outro projecto, para outra rádio, em Palmela, A Pal FM. Nessa rádio já fiz um programa meu, de raíz, a Onda Virtual, e entrevistei alguns artistas. Fiz a primeira entrevista aos MoonSpell em Portugal. Cá, quase ninguém os conhecia, ainda, e eu entrevistei o Fernando. Os Da Weasel, na altura, eram pequeninos – estavam a começar – e eu entrevistei o PacMan, agora Carlão. Houve coisas que comecei a fazer com dezasseis anos e que, depois, se foram desenvolvendo. Diziam-me que eu tinha muito jeito, que adoravam a minha voz e convidavam-me para outras coisas, até que, num ano, eu conheci um rapaz – um amigo colorido, vá – que me disse que trabalhava na Super FM mas que ia sair. Ia abrir uma vaga. Foi quando eu concorri. Fui lá, pedi para falar com o director – que hoje é o meu marido, foi assim que nós nos conhecemos – e disse-lhe, “estou aqui porque quero fazer rádio um bocadinho mais a sério, tenho estas entrevistas”. Ele respondeu-me, “não me interessam as tuas entrevistas, eu quero perceber se tu gostas de fazer rádio ou não”. Eu achei aquilo um máximo. Aceitou-me, comecei a fazer emissão, entretanto, a Super FM acabou e estive um ano sem fazer rádio, até que abriu um concurso de novos talentos para a Rádio Comercial. Eu entrei em Dezembro de 1999, eu e o Diogo Beja.
A.R.: De forma totalmente despretensiosa…
A.I.A.: Completamente.
A.R.: Mas querias mesmo trabalhar em rádio?
A.I.A.: Sim, eu nessa altura não tinha dúvida nenhuma de que era aquilo que eu queria fazer.
A.R.: Querias trabalhar em rádio mas não, em particular, na Rádio Comercial?
A.I.A.: Não, aliás, eu era ouvinte da Rádio Cidade – da Rádio Cidade Brasileira. Os brasileiros e os americanos, ainda hoje, são incríveis, têm uma pica, têm um power, têm ideias espetaculares para programas e o Gil também se baseava muito nas ideias brasucas. Eu gostava imenso. Não era de todo ouvinte da Rádio Comercial – e já admiti isso –, mas eu já não fazia rádio há um ano e sentia falta disso. Naquele ano em que não fiz rádio, eu juro-te, eu senti falta, porque eu descobri uma coisa que eu amava fazer: tinha tudo que ver comigo, tinha que ver com música – eu adorava música, sempre adorei música – e tinha que ver com comunicar, portanto, eu tinha descoberto, de facto, uma vocação, mas estava ali um bocadinho perdida. Já tinha concorrido a um concurso de outra Rádio, em Odivelas, tinha estado lá pouco tempo mas não tinha gostado muito daquilo e, um dia, ia a fazer zapping com os meus pais, no carro, enquanto fazíamos uma viagem qualquer, quando oiço qualquer coisa sobre um concurso de novos talentos. Acho que até foi a minha mãe que me disse, “porque é que não concorres?”, respondi “achas?, alguma vez vou ficar? É uma rádio grande”. Os meus pais insistiram, “concorre, não perdes nada; envia uma das tuas cassetes.” Eu enviei. Enviei uma cassete que eu tinha da Popular FM – acho eu! –, portanto, da primeira rádio onde eu trabalhei – que vergonha! – e chamaram-me para um casting. Fiz as fases todas do casting – por exemplo, falar inglês, fazer uma entrevista, criar uma emissão e apresentar músicas –, agradeceram-me imenso, informaram que passei as fases todas e mandaram-me para casa. Fiquei à espera de um telefonema. Três semanas e não me disseram nada. Eu pensei, “não me vão chamar”. Ao fim de três semanas, eu estava numa aula de ginástica – eu fiz ginástica de competição, ginástica acrobática –, quando, ao acabar a aula, fui ao telemóvel. Vejo muitas chamadas não atendidas, com mensagens. Atendi, era a secretária do director da Rádio Comercial – Miguel Cruz, agora director da M80 – a informar-me que eu tinha selecionada e, então, gostava que eu aparecesse para que pudéssemos conversar outra vez. Foi assim que eu entrei para a Rádio Comercial. Faço 20 anos de casa este ano. Saí quando acabou a Rádio Rock e fui para a Best Rock FM. Estive quatro anos na Best Rock e, quando voltei de licença de maternidade – no início de 2007 –, o Pedro Ribeiro, que já era director da Rádio Comercial nessa altura, voltou a chamar-me. Estou cá desde então. Mantenho-me na Média Capital desde 1999. Há 20 anos.

“A rádio é a comunicação por excelência.”

A.R.: A comunicação é um poder?
A.I.A.: Acho que é o poder mais grandioso que nós temos. A rádio é a comunicação por excelência. Ok, tens a televisão – mas a televisão tem imagem. Tu não precisas de ter a televisão com som. Eu, em casa, às vezes, para me fazer companhia, estando sozinha, ligo a televisão e meto aquilo em mute. É como se tivesse pessoas em casa. A rádio vive por si só. Tu não precisas de mais estímulo nenhum. Tens ali alguém a falar contigo, a música é comunicação. Eu acho que tudo tem que ver com comunicação e a base do mundo todo é a comunicação. Eu acho que sim. E, por isso é que eu acho que é muito importante darmos importância, passo a redundância, à forma como os animadores comunicam, mais do que à voz. Antigamente, em rádio, privilegiava-se a voz e os locutores – agora animadores: animamos as pessoas–, os radialistas, o que é que faziam? Viviam da voz. Podiam até não dizer nada de importante, mas aquelas vozes muito colocadas, que embalavam… Eu lembro-me de a minha mãe dizer que, às vezes, se apaixonava pelos locutores de rádio, porque imaginava como seriam. Ela contava uma história muito engraçada de um locutor – não vou dizer de que rádio – que, [ela] imaginava, deveria ser lindo, alto, loiro. Um dia conheceu-o. Era baixinho, zarolho, usava óculos... Era muito feio – mas tinha uma voz linda de morrer. Hoje em dia, felizmente, pelo menos aqui, privilegiamos muito mais a capacidade que o animador tem de chegar até à pessoa que está do outro lado: comunicamos, de facto, para vocês.
A.R.: Todos têm vozes interessantes.
A.I.A..: Uma voz que é agradável de se ouvir. Essa é a base. Se puderes ter uma voz agradável, melhor, mas, hoje em dia, de facto, aquilo que se privilegia não é tanto a voz. É mais a forma como se comunica e aquilo que se diz. Isso é mais importante.
A.R.: O sotaque é uma barreira?
A.I.A.: Sabes que… Há muita gente que diz isso, mas eu acho que não. Eu sou suspeita, eu adoro sotaques e adoro o sotaque do Norte. Adoro, adoro, adoro – de paixão! Tenho muitos amigos lá em cima e os meus primos, que moram lá em cima quase desde que nasceram, têm sotaque. Eu acho um máximo. Eu adoro.
A.R.: É pouco comum em rádio.
A.I.A.: Não é muito comum e eu sou contra. Os youtubers têm sotaques e são giros de se ouvir. Durante muitos anos, aliás, a Marta Santos era a nossa animadora do Porto: trabalhava no Porto, na nossa redacção do Porto, no nosso estúdio, e tinha sotaque. Nunca ninguém se queixou, pelo contrário: os ouvintes do Norte identificavam-se com ela. Eu acho que até é uma mais valia. Acabas por captar ou gerar a simpatia de mais pessoas, que não da região de Lisboa. Eu acho que é giro e acho que dá outra cor à emissão. Claro que depende de rádio para rádio. Com o Pedro Ribeiro eu acho que não há esse problema, de todo.
A.R.: Ser de Lisboa: é um privilégio?
A.I.A.: Há, de facto, uma vantagem. Eu não digo que é um privilégio porque eu acredito que é um privilégio morar em qualquer zona do nosso país – sinceramente, eu adoro várias zonas do nosso país. Acho que está tudo muito centralizado aqui em Lisboa e, profissionalmente, sim, é uma vantagem, de facto. Tanto que nós temos vários colegas a trabalhar aqui, em Lisboa, que se mudaram – de várias zonas do país – para ter uma oportunidade melhor. As grandes televisões estão aqui, as grandes rádios estão aqui, os grandes meios de comunicação estão aqui…
A.R.: E as pessoas estão aqui…
A.I.A.: Sim, as pessoas estão aqui. Se queres ter uma oportunidade maior ou a oportunidade, à partida, estará aqui. O que não sei se será bom. Eu gostava que a coisa se descentralizasse, mas é um facto.
A.R.: Falar de descentralização é falar em muitos anos…
A.I.A.: Sim, muitos anos, por isso é que digo que é, mesmo, uma vantagem para quem quer apostar a sério. Só estando aqui, não é possível estar fora. A não ser que, como te expliquei, a Rádio Comercial existe no Porto, há um estúdio lá e, durante muitos anos, tivemos lá vários colegas a trabalhar connosco.
A.R.: Está fechado, agora, esse estúdio?
A.I.A.: Não temos emissão a partir de lá e por isso é que a Marta Santos já não trabalha connosco. Foi uma decisão da empresa.
A.R.: Na era do ruído – comunicamos o tempo inteiro – como é que um comunicador se pode tornar relevante?
A.I.A.: Eu acho que se a pessoa for – e vou voltar ao início, ao momento em que me perguntaste quem era – eu acho que se a pessoa for genuína e verdadeira…
A.R.: [Interrompe] A autenticidade é a chave?
A.I.A.: A autenticidade é a chave. Vou te dar um exemplo. Eu tenho Instagram.

“Eu gosto de ver, de facto, aquilo que as pessoas vivem.”

A.R.: [Interrompe] Com um número relevante de seguidores…
A.I.A.: Com alguns, não tantos quantos gostaria – por outro lado, para quê 100.000, de que é que isso me iria valer? –, há quem acho muito, há quem ache pouco. Não angario likes, não compro likes, é aquilo que é. Whatever. É muito orgânico. Eu tenho Instagram e faço gestão de Redes Sociais – é uma parte do nosso trabalho. Hoje em dia, com o Instagram e com as influencers, chateiam-me muito aquelas miúdas – a minha filha segue algumas, ela faz agora treze anos e está mesmo nessa idade, eu tenho algum cuidado com ela e tento com que não entre muito no mundo das makeups e não sei quê [ela tem mais maquilhagem do que eu alguma vez tive!, quem sabe não sai dali uma maquilhadora?, não é por aí!] –…, eu prefiro mil vezes ver uma pessoa como eu, que hoje é capaz de partilhar uma foto das botas ou de como está vestida ou da comida ou de uma coisa gira que vejo e fotografo do que aqueles Instagrams em que é só a pessoa. Os feeds delas são só elas – me, myself and I – e aquilo é tão trabalhado, o filtro, a maquilhagem, como estão vestidas… Deixa de ser real. É uma montra fotográfica. Isso não me interessa. Podem ter muitos seguidores, mas… Será que se destacam, pela positiva? Para mim não. Não me dá pica ver aquilo, não me dá gosto. Eu gosto de ver, de facto, aquilo que as pessoas vivem. O seu dia-a-dia. Por exemplo, eu hoje fiz stories com os meus cães. Partilhei uma fotografia com uma agenda nova que eu comprei…
A.R.: [Interrompe] Há dias, o dilema da Rainbow.
A.I.A.: O meu dilema da Rainbow! Eu não quero que me ofereçam a Rainbow, atenção, eu vou comprar aquilo – à partida –, só quero saber se o meu investimento é bom ou mau. Portanto, fiz um post com uma foto horrorosa, com a porcaria que me tinha saído do sofá, do tapete, ou não sei quê, a perguntar a opinião das pessoas: quem tem, está satisfeito, acham que é, de facto, um bom investimento?
A.R.: Eu não conhecia o produto.
A.I.A.: Eu tinha 500 comentários à publicação. Fiquei parva. Há pessoas que vêem aquilo como operação de charme mas não é, de todo, isso. A Rainbow não oferece e não é disso que eu estou à procura. É uma publicação genuína de uma pessoa que pensa num investimento. Custa 3000€. Vou pagar a prestações – não posso pagar a pronto – e preciso de saber se é um bom investimento ou não. Quero a opinião das pessoas. E tu viste que as pessoas foram lá responder na boa, não houve uma única pessoa que me dissesse “é publicidade para te oferecerem a máquina”, porque os meus seguidores sabem que eu não faço isso. A autenticidade, eu penso, é o fundamental para tu te destacares onde quer que seja. Aquela coisa muito fabricada das fotos – tudo muito maquilhado e produzido –, para mim, não funciona. Com os youtubers a mesma coisa: eu prefiro mil vezes um youtuber divertido, que me mostre coisas reais e brincadeiras reais, do que aquelas bonitinhas que só me estão a mostrar produtos. Estão a fazer publicidade a marcas, eu entendo…
A.R.: [Interrompe] Tu também fazes publicidade a marcas…
A.I.A.: Também faço alguma publicidade a marcas, também recebo, também estou numa agência mas, ponto assente, eu não faço publicidade por fazer e não quero encher o meu feed com publicidade porque essa não é a minha cena. Eu sou mulher, mãe, amiga, profissional, mostro a minha inteireza e, de vez em quando, sim, há uma marca que me paga para eu mostrar um produto. Eu tenho que experimentar o produto, perceber se gosto e só publico se eu gostar. Não é por me enviarem que eu vou publicar. Não publico. Acho que os meus seguidores sentem isso e sabem que isso é verdadeiro. Eu já recusei trabalhos e publicidade à minha agência porque eu não me identifiquei com o produto. Dizem-me, “era um dinheirinho extra que ganhavas”. Está bem mas… A minha credibilidade? O meu eu? Não faz sentido. Acontece, também, às vezes, as marcas enviarem-me as coisas, à socapa, aqui para a Rádio, por simpatia. Eu experimento, gosto, publico. Eu não publico só porque me pagam e, às vezes, vejo muito isso nas redes sociais. Publicam tudo, partilham tudo, porque são pagas. Isso para mim é…

“Eu sigo pessoas pela sua autenticidade.”

A.R.: Mais tarde oferecem os produtos em giveaway, o que significa que não usaram.
A.I.A.: Percebes? Eu vou fazer um giveaway. Vou explicar. A Disney ofereceu-nos um saco, enorme, cheio de coisas dos Descendentes – do filme. Na altura, a minha filha era super fã dos Descendentes. [Ela] Adora o filme, os personagens,… Mas ofereçam-lhe uma malinha – giríssima!, assinada até pelos protagonistas – que não é o estilo dela, por mais que ela goste dos filmes. Nós fizemos a nossa parte, fizemos uns stories porque adoramos o saco – tinha uns cadernos, nós adoramos cadernos; tinha uma mochila – mas não gostamos, particularmente, da malinha. Eu vou fazer um giveaway com a malinha mas ninguém me pediu para fazer, eu não ganhei dinheiro com aquilo, a Disney não me pagou – simplesmente me enviou um pack, eu gostei, adorei a simpatia, principalmente, e partilhei. Mas não fui paga para isso. E é tão orgânico que eu sinto, às vezes, falta dessa autenticidade. Eu sigo pessoas pela sua autenticidade. Eu prefiro mil vezes uma pessoa que não mostre a sua cara, nunca, mas que mostre as coisas do dia-a-dia e aquilo que faz do que aquelas miúdas, como eu te estava a dizer… Deixa de ter graça para mim. Para tudo na vida, para seres bom naquilo que fazes, tens que ser autêntico e tens que ser real. Se tu tiveres capas, as pessoas percebem isso. Um dia, a máscara cai. Agora, uma pessoa sem ideias…
A.R.: O que vale mais? Talento ou esforço?
A.I.A.: Apesar de eu querer dizer fifty-fifty, não posso. Acho que 70%-30%. 70% para esforço e 30% para talento. Se não te aplicares, o talento não vai valer de nada. Tu podes ser muito bonita, mas seres só bonita não chega para seres modelo, atriz ou apresentadora de televisão. Tens que te empenhar, tens que trabalhar – esse treino, essa preparação, são os 70% precisos, em qualquer profissão. Na minha profissão, eu posso ter uma boa voz – normalmente dizem-me isso – mas, se eu não fosse comunicativa, se eu não trabalhasse as minhas emissões, o encanto perdia-se. Só pela voz não conquistas as pessoas. Acredito nos 70% de trabalho e 30% de talento. Não querendo dizer 80%-20%. Pronto.
A.R.: Qual é o futuro da Rádio?
A.I.A.: Eu estou um bocadinho preocupada com o futuro da rádio.
A.R.: Houve tempos piores do que estes que vivemos para a rádio? É clara a modernização.
A.I.R.: Não vivemos de sermos rádio. Empenhamo-nos para sermos mais e melhor, para tentar combater Youtube, Spotify e tudo o que está à volta da rádio. Eu uso muito Spotify, portanto, contra a rádio falo. Na Spotify fazes as tuas listas, tens as tuas músicas, não tens que estar a levar com publicidade e, se calhar, às vezes, com o locutor de quem tu não gostas.
A.R.: Sempre também, talvez, com as mesmas músicas…
A.I.A.: É um problema, mas esta é uma empresa cotada em bolsa e vive de estudos de mercado. Só passa a música que realmente as pessoas querem.
A.R.: Parafraseando o Pedro Boucherie Mendesas pessoas têm atelevisão que querem –, as pessoas têm a rádio que querem?
A.I.A.: Ponto. É tão simples quanto isso. A rádio está formatada para o seu público. Isso está estudado. Venha quem vier, contra as playlists. Informem-se. Falem com um director que vos mostre os gráficos, que vos mostre os estudos do mercado com os quais somos confrontados todas as semanas. Na Rádio Comercial, todas as semanas, à quinta-feira de manhã, temos uma reunião de antena com o Pedro Ribeiro e todas as pessoas envolvidas na Rádio Comercial, para falar de coisas, incluindo, dos estudos de mercado que fazemos, das audiências. Nós sabemos, de semana a semana, aquilo que os nossos ouvintes querem ouvir, as músicas de que estão cansados e as músicas que continuam a adorar. Muitas vezes os ouvintes adoram músicas das quais nós, animadores, já estamos cansados. E são as músicas que despertam mais paixão nos testes de música. É incrível. Aquilo que é avaliado é o nível de cansaço e o nível de paixão – não só, mas…
A.R.: [Interrompe] Como é que se avalia?
A.I.A.: Há uma empresa que trabalha connosco que seleciona um grupo de ouvintes-tipo da Rádio Comercial. São passados bocadinhos de refrões e os ouvintes têm que dizer o que é que aquela música transmite. Se gostam, se não gostam, se estão cansados ou se adoram. Nós ficamos abismados, às vezes, com músicas que os ouvintes amam de paixão. Não nos podemos deixar levar pelo nosso gosto, temos que nos deixar levar pela maioria que ouve a Rádio. Eu tenho muito medo, hoje em dia, porque há muita distracção mas, por outro lado, tenho muita confiança no trabalho que estamos a fazer e em tudo aquilo que nós arranjamos – os estratagemas – para conquistar o público. Os passatempos, os concertos, as digressões da manhã, os evento, as causas que apoiamos porque acreditamos que têm que ver connosco… Nós tentamos, por tudo, combater. A Mixórdia de Temáticas, o Rebenta a Bolha…
A.R.: Os animadores também contribuem para? Pergunto se um critério, para o público determinar se ouve a emissão, é o animador.
A.I.A.: Sim, temos ouvintes padrão de cada animador. Eu tenho os meus seguidores, os meus ouvintes, o Wilson Honrado tem os deles, a Rita Rugeroni tem os dela. Há pessoas que ouvem o dia todo, quando estão no carro, ou quando podem, qualquer um de nós, e há ouvintes que nos ouvem porque sabem que estamos lá. Eu, normalmente, faço noite mas, nestas semanas, em que fiz manhãs e tarde, tive ouvintes que transitaram. Nessa questão sobre o futuro da rádio, por alguma razão, somos a rádio número um há muitos anos. É muito por causa do nosso trabalho de equipa. Partilhamos muito as dúvidas e as angústias – o Pedro Ribeiro pergunta-nos sempre “dúvidas, angústias?” no final de cada reunião – e isso acaba muito por nos ajudar. Nós temos um chat e trocamos muitas ideias lá. Isso ajuda a Rádio, também, a manter-se viva e a manter-se à tona. Portanto, eu tenho algum receio mas, por outro lado, acho que nós conseguimos dar a volta por cima, porque nós temos uma coisa que o Spotify, por exemplo, não tem: nós temos pessoas cá, a trabalhar, em directo, ao vivo, para quem está do outro lado. Os ouvintes podem entrar em contacto connosco. Agora até temos um WhatsApp na Rádio Comercial. Está sempre aberto no computador. Os ouvintes sentem-se acompanhados e não têm essa experiência com a televisão, não há essa interacção, só tens isso com a rádio. Eu acho que nós descobrimos isso na altura certa e estamos a tirar grande partido disso.
A.R.: Quando volta O Meu Blogue Dava Um Programa de Rádio?
A.I.A.: Eu adorava, gravava imensas vezes. É a nossa Ana do Carmo, que hoje em dia é locutora e era só produtora, naquela altura, quem fazia esse programa. Eu adorava. Eu não ligava muito a blogues – aliás, criei o meu quase só por necessidade, para pôr lá as pérolas da Nô, para ter tudo esquematizado, por ordem – e, naquela altura, deu-me vontade de ler alguns blogues e deu-me vontade de ter um blogue diferente, mesmo, só de desabafos, de coisas do dia-a-dia. Acabei por não criar mas ainda hoje – hei-de criar! -, tenho essa ideia cá dentro. Esse programa era genial. Eu adorava que isso voltasse e a Ana também adorava mas…
A.R.: É pouco provável?
A.I.A.: Não é pouco provável, é uma decisão do Pedro. Eu e a Ana já falamos muito sobre isso. Gostávamos muito que voltasse. Mas, se calhar, ainda não foi a altura certa. Eu acho que tudo tem um timing e acho que devemos saber ler e interpretar os sinais do Universo. Estou agora muito na Meditação e eu acredito muito nisso. Acredito que quando tiver que regressar, vai regressar. Acredito, sinceramente, que vai regressar. Não te sei dizer quando. Não sei. Eu e a Ana gostávamos e fazemos muita força para que isso aconteça. Agora, tudo depende do Pedro Ribeiro – que é o director – e a batata quente é sempre para a mão dele porque nós, de facto, não decidimos grande coisa. Ajudamos e podemos chateá-lo, mas a última palavra é sempre a dele – mesmo em relação à música.

“O Rock é incrível. Não há é um espaço em rádio porque, quer queiramos quer não, é um nicho, ainda marginalizado.”

A.R.: Última pergunta. O Rock?
A.I.A.: O Rock fica sempre no meu coração e nas minhas veias, continua cá e eu, se pudesse, trabalhava numa rádio Rock. Sinceramente. Gostando mesmo muito da Rádio Comercial, se alguém abrisse uma rádio Rock, se me pagasse o mesmo ordenado e se me convidasse, dificilmente eu conseguiria dizer que não. Por isso é que eu criei o podcastRock Star – para poder ter a minha música, as minhas bandas, e para poder continuar a falar delas, porque é aquilo que eu oiço no carro e na Spotify, quando não oiço a [música] comercial. Eu oiço, também, muito a concorrência. Há quem tenha pudor de admitir isso, mas eu penso que só nos faz mais informados: há que saber o que está a acontecer do outro lado. Eu estou constantemente a fazer zapping. Eu trabalho cá o dia inteiro e, às vezes, até estou um bocadinho farta da minha rádio. É verdade! Eu gosto muito de ouvir as outras rádios e de saber o que está a acontecer: gosto de ouvir os animadores, de saber o que é que estão a fazer e a dizer. O Rock Star surgiu porque eu senti necessidade de criar o meu espaço de Rock – do Rock que, na emissão normal, eu não posso passar. O Pedro aprovou, logo. Ali, posso passar o que quiser: as músicas mais pesadonas, as minhas bandas… Se pudesse fazer um programa de Rock na RádioComercial, melhor. Ainda não consegui, mas hei-de conseguir convencer o Pedro Ribeiro. Até lá, divirto-me com o Rock Star, curto as minhas cenas e espero que o pessoal também goste de ouvir. O feedback que tenho tido, daquela malta que precisa do Rock que hoje, em rádio, não há!, é muito bom. E os concertos… É inacreditável, os concertos de Rock e Metal estão sempre a abarrotar, sempre esgotados. Os concertos estão sempre cheios. Dizem-me que o “Rock já não é o que era.” Não? O Rock é incrível. Não há é um espaço em rádio porque, quer queiramos quer não, é um nicho, ainda marginalizado. O que é facto é que eu acho que é mercado. Não seria uma rádio grande – como a Best Rock FM não era uma rádio grande – mas, sim, há um nicho e faz falta uma rádio rock. Infelizmente. Oiçam o meu Rock Star.

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